Artigo completo sobre Vale do Massueime: três aldeias unidas pelo rio Côa
Moinho de Sorval, pontes medievais e Caretos de Entrudo na vertente serrana de Pinhel
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O som chega antes da imagem: água a escorrer sobre pedra, constante, fria mesmo em agosto. O Massueime corre entre choupos e xisto, um dos poucos rios da Beira Interior que nunca seca, alimentado por nascentes de altitude que os antigos souberam aproveitar. Junto ao moinho recuperado de Sorval, a roda de madeira gira ocasionalmente, mais para memória do que para moer — mas o mecanismo está intacto, o eixo de carvalho ainda range quando a água empurra as pás.
Vale do Massueime nasceu da agregação de três aldeias — Santa Eufémia, Sorval e Póvoa d'El-Rei — e a geografia explica a união: todas se agarram à mesma vertente do Côa, a cerca de quinhentos metros de altitude, ligadas por caminhos de terra batida que cruzam soutos de castanheiro e olivais de tronco retorcido. A ponte medieval entre Santa Eufémia e Sorval, com tabuleiro em cavalete e silhares irregulares, é ainda a ligação mais curta quando se vai a pé.
Três igrejas, um vale
Cada núcleo tem a sua igreja. A Matriz de Santa Eufémia guarda um retábulo maneirista do século XVII, dourado a folha, que contrasta com a cal branca das paredes; o adro abre-se sobre o vale, e nos dias de vento ouve-se o sino bater solto. Em Sorval, a fachada barroca de Santo André enquadra um altar dedicado à padroeira, enquanto a Capela de São Sebastião, na Póvoa d'El-Rei, é uma edícula setecentista de nave única, com cruzeiro de granito plantado no largo. Nenhum destes monumentos figura nos roteiros nacionais, mas todos estão inventariados pela DGPC como Imóvel de Interesse Público desde 1977 — o reconhecimento discreto de quem sabe que a história também se escreve em pedra miúda.
Caretos e castanhas
Em fevereiro, quando o frio morde, Sorval acorda para o Entrudo: os Caretos saem à rua com máscaras de alder buckthorn pintadas de vermelho e amarelo, guizos nos cintos, percorrendo as casas ao som de concertinas. A tradição sobrevive porque os emigrantes regressam — 62% da população tem mais de 65 anos, e há 255 fogos vazios ou usados apenas no verão. Mas em 16 de setembro, quando Santa Eufémia é celebrada com procissão e arraial, o vale enche-se de vozes e o fumo das sardinhas sobe pelos soutos.
Na Festa da Castanha e do Vinho, no primeiro fim de semana de novembro, os produtores locais trazem tintos da casta Rufete e brancos do Síria, vinhos da Região Demarcada Beira Interior que raramente saem da região. A mesa completa-se com cabrito assado na brasa — IGP Cabrito da Beira —, enchidos caseiros (chouriço de vinho, morcela de arroz), azeite DOP da Beira Alta e bolo de noz e mel. O pão de centeio, fermentado em forno a lenha, ainda se vende de porta em porta aos sábados.
O trilho que liga tudo
O Trilho do Massueime — sete quilómetros circulares, sinalizado como PR 2 PIN — costura as três aldeias, passa pelo moinho, atravessa a ponte medieval e sobe até ao miradouro do Carrascal. Dali, equipado com mureta de observação, avista-se o voo planado do abutre-do-egipto sobre as encostas rochosas a sul. Javali, geneta e coruja-das-torres completam o censo da fauna; o souto de Póvoa d'El-Rei é apontado como um dos mais bem conservados da Beira Interior, com castanheiros com 300 anos de idade, troncos com 4 metros de perímetro.
Quando o sol desce, a luz rasante acende o xisto dos muros e o verde dos lameiros ganha tons de cobre. Junto à levada do moinho, onde há mesas de madeira e sombra de choupos, o Massueime continua a correr — indiferente ao calendário, fiel à nascente, como se o trabalho de cinco moinhos ainda dependesse dele.