Artigo completo sobre Aldeia da Ponte: touros, granito e vida raiana
A 810 metros de altitude, entre capeias e forcões partidos, a aldeia mantém viva a tradição
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O forcão parte-se ao meio e o som ressoa pela praça de pedra seca como um tiro de caçadeira que alguém disparou sem querer. É agosto, a arena de madeira e granito está cheia, os homens gritam, o toiro investe de novo. Em Aldeia da Ponte, a 810 metros de altitude, o verão cheira a suor, a terra batida, a fumo de sardinha que sobe das braseiras montadas na rua. A população oficial — 262 habitantes, dos quais 161 ultrapassaram os 65 anos — triplica quando os emigrantes regressam. As ruas enchem-se de vozes, de risos, de memórias que só aqui fazem sentido.
A ponte que dá nome ao lugar
A ribeira da Aldeia, também conhecida como Rio Cesarão, corre entre lameiros e soutos de castanheiro. A ponte que justifica o topónimo ainda resiste, modernizada mas conservando a estrutura original em pedra, testemunho silencioso da rota entre Vilar Formoso e Sabugal. Sobre ela passaram rebanhos, carroças, contrabandistas e, mais tarde, os primeiros automóveis. Hoje, quem atravessa a pé escuta apenas o murmúrio da água entre blocos de granito cinza e o canto longínquo de uma águia-de-asa-redonda que sobrevoa os planaltos de esteva e urze.
A Igreja Matriz de Nossa Senhora da Assunção ergue-se no centro, setecentista, discreta. Ao lado, o antigo Colégio da Congregação dos Servos de Jesus, fundado no século XIX, permanece devoluto. As janelas sem vidros enquadram o céu, os corredores estão em silêncio. Foi aqui que gerações de rapazes aprenderam latim e aritmética, antes de partirem para o mundo. Agora, só o vento percorre as salas vazias.
Touros, forcões e tradição raiana
Aldeia da Ponte é uma das capitais da Capeia Arraiana. A praça de touros — inteiramente em pedra seca e madeira local, sem um único prego de ferro — acolhe duas capeias por ano: no sábado de Páscoa e a 15 de agosto. Dias depois, realiza-se o concurso "Ó Forcão Rapazes!", que reúne pegadores de nove aldeias do concelho. Em 2010, o primeiro toiro partiu literalmente a trave frontal do forcão. A aldeia não esquece. Nas ruas, ainda se pratica o encerro: os toiros percorrem as artérias principais, acompanhados por cavalos e homens de forcão em punho, numa coreografia ancestral de risco e bravura.
A cozinha é serrana, densa, construída para aguentar o frio do inverno. Cabrito assado no forno de lenha — IGP Cabrito da Beira —, chanfana, enchidos de porco bísaro, borrego estonado. O azeite DOP da Beira Alta corre generoso sobre o pão, o queijo da Serra da Estrela fecha as refeições, acompanhado de um tinto robusto da região vinícola Beira Interior, produzido em vinhas plantadas a 800 metros sobre solos graníticos. Em época de caça, o javali estufado é obrigatório. No verão, as filhós de abóbora e as queijadas de requeijão adoçam as tardes compridas.
O silêncio da Malcata
A sul, a Reserva Natural da Serra da Malcata estende-se em matos e afloramentos rochosos. A densidade populacional — 7,14 habitantes por quilómetro quadrado — permite que o silêncio se instale como matéria física. Trilhos rurais ligam Aldeia da Ponte a Aldeia Velha e aos Forcalhos, atravessando pastagens onde o gado bovino e ovino pasta sem pressa. Entre os carvalhos, é possível avistar o grifo a planar em círculos largos, aproveitando as térmicas da tarde.
Quando a capeia termina e a praça esvazia, fica o cheiro a madeira velha aquecida pelo sol, o pó suspenso no ar dourado de fim de tarde. E o eco distante de um forcão a bater na pedra — não porque se partiu, mas porque alguém, algures, ainda treina para o próximo agosto.