Artigo completo sobre Vilar Maior: castelo raiano e gravuras do Bronze Final
Três aldeias de granito e xisto guardam 3000 anos de história na serra do Côa
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O sol bate no granito das casas de Vilar Maior e a pedra devolve o calor acumulado. Nas ruas estreitas, o silêncio só é interrompido pelo eco de uma porta de madeira que se fecha, pelo arrastar de passos sobre a calçada irregular. Aqui, a 796 metros de altitude, o vento que sobe do vale do Côa traz consigo o cheiro a terra seca e a esteva. Três aldeias — Vilar Maior, Aldeia da Ribeira e Badamalos — partilham 266 habitantes, 68 quilómetros quadrados de montanha e um tempo que se mede pelo calendário agrícola, não pelo relógio.
Pedra que foi vila
Vilar Maior ergue-se em torno do seu castelo medieval, testemunho de quando foi vila e sede de concelho até 1855. As muralhas dominam a paisagem raiana, mas é nas vielas que a história se sente: nos batentes de granito gastos por séculos de mãos, nos vãos das janelas onde a cal descasca, no peso das portas que rangem. A igreja matriz guarda o silêncio das procissões das Endoenças — tradição que se perde na memória dos mais velhos — enquanto nas rochas próximas, gravuras do Bronze Final — espirais e meandros geométricos — provam que este planalto já era habitado há três mil anos. Aldeia da Ribeira e Badamalos conservam arquitetura de xisto escuro, espigueiros de granito e o ritmo lento de quem ainda vive da terra. Em Badamalos, a capela de São Pedro data de 1626 e mantém a sua estrutura original.
O vale que nasce aqui
O rio Côa nasce nas serras que circundam Vilar Maior, a poucos quilómetros do castelo. A Grande Rota do Vale do Côa percorre a freguesia, descendo por caminhos onde os sobreiros crescem tortos e a vegetação rasteira se agarra ao xisto. A Reserva Natural da Serra da Malcata estende-se por estes montes, território de águias-de-asa-redonda que planam em círculos largos e de gatos-bravos que ninguém vê mas todos sabem que existem — os últimos registos datam de 1992. Caminhar aqui é sentir o frio húmido das manhãs de nevoeiro, o calor seco das tardes de agosto, o cheiro intenso a esteva quando o sol aperta.
Bucho, azeite e pão de xisto
A gastronomia raiana não faz concessões. O Bucho Raiano — chouriço de carne de porco recheado — é servido com batata e couve, sem floreados. O cabrito da Beira, com Indicação Geográfica Protegida desde 1996, assa devagar em fornos de lenha. Os azeites da Beira Interior — DOP da Beira Alta e Beira Baixa — são produzidos nas redondezas, densos e frutados, ideais para regar o pão de xisto ainda quente. Os queijos de ovelha e cabra amadurecem em caves frescas, enquanto a Rabaçal, doce de ovos e amêndoa, fecha as refeições com a doçura que só o açúcar e a paciência conseguem.
Agosto raiano
A Capeia Arraiana reúne as três aldeias em festa — música, dança e mesas compridas onde se come e se bebe até tarde. A 17 de agosto, Vilar Maior enche-se para a feira anual; a 24, é a vez de Badamalos. Nestas datas, a população triplica por um dia. A Confraria do Bucho Raiano, fundada em 2002, perpetua sabores e gestos antigos, enquanto as procissões religiosas continuam a percorrer as ruas, levadas por mãos envelhecidas mas firmes.
Quando a tarde cai, o castelo de Vilar Maior projecta a sua sombra comprida sobre o vale. O vento traz o cheiro a fumo de lenha dos primeiros lumes acesos nas lareiras. É esse cheiro — madeira de carvalho queimada, fumo denso que sobe direito ao céu limpo — que fica na memória de quem passa por aqui.