Artigo completo sobre Cerdeira: aldeia de xisto renascida pelas mãos de artistas
Oitenta metros de escadaria, ateliers em casas de pedra e um vale serrano a 802 metros de altitude
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A escadaria de lousa sobe oitenta metros em degraus irregulares, polidos por séculos de botas ferradas e pés descalços. Nas juntas cresce musgo esmeralda que brilha depois da chuva, e o xisto escuro das casas absorve a luz rasante da manhã como se a guardasse para a noite. Não há motores aqui dentro — os carros ficam no largo exterior, junto aos sobreiros —, apenas o rumor da Ribeira da Cerdeira lá em baixo e o tilintar metálico de uma cabra que escapou ao curral. Cerdeira ergue-se a 802 metros de altitude, encravada na vertente noroeste da Serra da Lousã, com cento e oitenta e oito habitantes permanentes e uma história de ressurreição improvável.
Aldeia que morreu e renasceu
Em 1984, quando o censo contou apenas 49 residentes, Cerdeira estava à beira da extinção. O abandono acelerou depois de 1986, ano em que uma rixa entre vizinhos terminou em homicídio - os sobrevivantes partiram em bloco para Sabugal e Vilar Formoso. Durante oito anos consecutivos, nenhum bebé nasceu aqui. A viragem começou em 1994, quando Ursula Brummer, escultora de Stuttgart, comprou a casa nº 42 por 500 contos e montou atelier atrás do tanque comunitário. A notícia correu na Gazeta da Beira de 3 de Março de 1995; até ao final desse ano, mais sete artistas - três alemães, dois holandeses, um francês e uma portuguesa - tinham comprado ruínas. Hoje, das 72 casas existentes, 34 pertencem à Fundação Cerdeira criada em 2009. A Casa das Artes e Ofícios, instalada no antigo celeiro do João Velho, oferece 18 oficinas anuais - em 2023, as de cerâmica de alta-temperatura com Jorge W. Pereira esgotaram em 48 horas.
Pedra, talha dourada e levadas
No topo da escadaria, a Igreja de São Tiago abre portas pesadas de madeira castanha trazida de Trancoso em 1897, depois do incêndio que destruiu a anterior. Dentro, o retábulo barroco - atribuído ao mestre José de Almeida por José-Augusto França em 1968 - tem talha dourada aplicada sobre cedro do Buçaco. No sacrário, guarda-se uma arca de prata de 1734 com 37 cm de altura, trazida por um casal de mineiros que aqui se refugiou durante a Guerra dos Sete Anos. Mais acima, a Capela de Nossa Senhora de Fátima - construída em 1951 com pedra da própria serra - funciona como miradouro natural. Dali avista-se o vale onde se contam 14 muros de xisto seco com mais de 150 anos, erguidos pelos Silvano, uma família que aqui viveu desde 1786 até 1987. A levada da Cerdeira, desviada da Ribeira em 1873, ainda alimenta o moinho do Meio - hoje convertido em alojamento, mas com a rodagem original de 1903 preservada. O forno comunitário, reedificado em 1998 com o mesmo calcário local, mantém-se funcional; no dia 25 de Julho, quando se celebra São Tiago, os habitantes acendem-no às 4h30 para assar 18 cabritos - cada família paga 5 euros à Junta pela lenha e manutenção.
Chanfana, brama e digital detox
A gastronomia ancora-se no Cabrito da Beira IGP - os 14 produtores locais abatem às quintas-feiras no matadouro municipal do Sabugal, a 19 km. No restaurante "O Céu na Boca", o cabrito é assado em forno de lenha de carvalho-negral durante 3h30; serve-se com batatas-doce de Trancoso e azeite DOP Beira Alta, produzido na lagar cooperativa de Aldeia Viçosa, a 12 km. O azeite novo, espremido em Novembro, vem em garrafas de 250 ml vendidas a 7,50 euros na loja da aldeia. Há bucho recheado com enchidos do talho Silva em Vilar Formoso, ensopado de javali abatido durante a época de caça (15 Setembro-15 Janeiro), queijo de ovelha curado 60 dias na cave do Zé Manel. As cavacas de xisto - inventadas em 2003 pela pastelaria "Doce Pedra" - levam açúcar queimado e farinha de bolota; rendem 2,20 euros cada. No Café da Videira, o pequeno-almoço biológico (7 euros) inclui pão de fermentação natural da padaria "A Pão de Céu" e compota de medronho caseira. Em Setembro, os veados bramam ao anoitecer - o pico é entre os dias 15 e 25, quando se podem ouvir até 14 machos diferentes. O safari noturno com o biólogo Rui Carvalho (25 euros/pessoa, mínimo 4) parte às 20h30 do largo, regressa à meia-noite. Nos 12 alojamentos de turismo da aldeia, não há televisão desde 2011 - decisão unânime dos proprietários na assembleia de 12 de Março desse ano.
Esculturas entre floreiras
"Cerdeira à Solta – Art meets Nature" começou em 2012 por iniciativa de Paulo Ventura, então presidente da Junta. Desde então, 43 escultores expuseram aqui - a primeira foi "Mulher de Pedra" de José Aurélio, colocada no jardim do Celeiro em Maio de 2012. Em 2023, participaram 18 artistas de 7 nacionalidades; a peça mais fotografada foi "Raiz" de Tchai de Sousa, instalada na eira da casa nº 27. O trilho PR 2 Lousã liga Cerdeira aos Penedos de Góis em doze quilómetros - marcações amarelas e vermelhas instaladas em 2008, tempo médio 4h30. Mais curto, o percurso circular de 3,2 km até à Fraga da Pena sobe 180 metros de desnível; a cascata de vinte metros está assinalada desde 1995, quando a Câmara deu luz à infra-estrutura.
Ao crepúsculo, sentado nos degraus da Capelinha - construída com a mesma pedra que as casas, entre 1950 e 1951 - o som que fica é o da água lá em baixo. Corre desde sempre, mesmo durante os oito anos em que a aldeia esteve vazia entre 1986 e 1994, quando nem o cão do Quim Marques aqui ficou.