Artigo completo sobre Forcalhos: onde o forcão comanda touros na pradaria
União de freguesias na serra da Malcata com capeias arrainas e marcação do centro do mundo
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O forcão bate na pedra de xisto, metal contra rocha, e o eco sobe pela pradaria como alguém que sublinha uma frase à espera que o outro entenda. Agosto traz o calor seco da altitude e o mugido dos touros soltos na capeia, enquanto o fumo de lenha sobe dos fornos onde o cabrito assa devagar — não é pose, é o jantar. Forcalhos e Lajeosa, unidos por decreto mas separados por uma curva da estrada, ocupam o sítio onde a Malcata se rende ao Côa: 877 metros de altitude, 219 habitantes e mais burros que carros.
O centro do mundo tem uma marca geodésica
Há uma cruz corrida na pedra, junto ao cruzeiro, que os mais velhos diziam marcar o tal “centro do mundo”. Ninguém leva a expressão muito a sério, mas serve para justificar quando o GPS perde o sinal. A igreja de Santa Maria Madalena fica no largo como quem espera que alguém venha — e vêm, sobretudo às missas-festa. A capela de São Brás é mais pequena, cabe nas procissões de Inverno e nas promessas silenciosas. Já a ermida da Nossa Senhora da Consolação, mesmo em cima da raia, foi mandada erguer por uma mãe depois de o filho regressar da guerra — destruída, reconstruída, e hoje ainda ponto de encontro de portugueses e espanhóis a 28 de Setembro. Cruzam-se a pé, trocam-se sopas de trigo e regressam a casa antes de escurecer, como quem vai ao café da aldeia de lado.
Forcão, touro e pradaria
No terceiro domingo de Agosto há festa do Santíssimo, mas toda a gente sabe que o prato forte é segunda-feira. Aí soltam-se os touros na pradaria e os homens avançam com os forcões — ferro de dois metros que deu nome ao lugar — para os conduzir sem arena nem grades. Quem não quer levar passagem fica atrás das cancelas das herdades; quem quer mêdo aproxima-se de mangas arregaçadas. Entre corridas, come-se cabrito que foi ao forno desde as cinco da manhã, chouriço de porco preto que se desfaz na boca e queijo curado que faz ranger os dentes. Bebe-se o tinto da Beira Interior que não pede permissão — se ainda está fresco, azeda; se já tem uns anos, aquece. A música começa quando o sol se põe atrás do sobreiro e só acaba quando o acordeonista lembra que tem vacas a ordenhar.
Xisto, esteva e lince invisível
A Malcata está ali ao lado, mas o lince ninguém o vê — é como o primo rico que se sabe que existe mas nunca aparece às festas. O Côa talha o norte, as ribeiras descem depressa quando chove e secam antes de a notícia chegar ao jornal. O trilho que sobe à Consolação serve para desenferrujar as pernas e para a rapaziada tirar selfies com o marco de granito. No Inverno o vento vem direito de Espanha e leva os telhados; no Verão a terra racha e as vacas descem sozinhas às poucas de água.
Azeite, castanha e requeijão
O azeite é do bom: pinga-o nas migas com torresmos e percebes logo porque é que o pão não tem pressa. O cabrito, se for da Beira, desprende-se do osso sem esforço — é carne que soube o que era pastar em ladeira. No outono há queijo de ovelha curado que se parte ao meio com o polegar e requeijão que se come à colherada, escondido da mulher porque “engorda”. À chegada das castanhas, o magusto é na porta da padaria: assam-se no tachinho do café, junta-se jeropiga caseira e fala-se da colheita até azeitolar. Para adoçar, há bolinhos de noz que a avó guarda num tupperware debaixo da cama — “só para os netos”, mas acabam sempre na mesa do jantar.
O fumo do forno apaga-se, o cheiro a carvalho agarra-se à roupa e a Malcata vai ficando preta. Forcalhos recolhe-se: umas luzes ténues, um cão que ladra longe, o forcão encostado à parede do celeiro — amanhã volta à pradaria, se o tempo não se zangar.