Artigo completo sobre Capeia Arraiana: touros soltos nas ruas da raia beirã
Tradição taurina ancestral une três aldeias serranas no concelho do Sabugal
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O som chega antes da imagem: o tinir metálico dos chocalhos, o mugido grave de um touro solto na rua, o tropel de cascos na calçada irregular. A Capeia Arraiana não é aqui um espectáculo para turistas — é a forma como a raia beirã respira, uma tradição que atravessa gerações e une Pousafoles do Bispo, Pena Lobo e Lomba num mesmo pulso ancestral. A poeira levanta-se da terra batida, mistura-se com o cheiro a suor animal e a madeira das barreiras improvisadas. Aos 855 metros de altitude, o ar corta, mas a adrenalina aquece.
Três nomes, uma só geografia
Esta união de freguesias nasceu em 2013, costurando administrativamente três núcleos que a montanha já mantinha próximos. Pousafoles do Bispo traz no nome a memória de uma jurisdição eclesiástica antiga — documentos do arquivo da Sé da Guarda referem "Possafoles" em 1258 como pertença do bispo dominicano D. João de Aboim. Pena Lobo guarda vestígios romanos no solo: em 1978, o arqueóólogo Augusto Cardoso encontrou fragmentos de terra sigillata e um as de bronze com a efigie de Nero a 500 metros da capela de São Sebastião. Lomba, por seu lado, esconde nas entranhas uma história geológica que no século XX se transformou em concessões mineiras: a "Minas da Lomba Lda." explorou cassiterita e wolframita entre 1941 e 1953, empregando 120 trabalhadores nos dois níveis da mina. A extracção parou quando o preço do tungsténio caiu de 120 para 18 dólares por tonelada em 1954, mas os filões continuam lá, invisíveis sob o xisto escuro e o musgo que cobre as escombreiras abandonadas.
A população encolheu de 457 para 390 habitantes entre 2011 e 2021. Dos que ficam, 222 têm mais de 65 anos. Treze crianças correm ainda pelos largos de pedra — um som cada vez mais raro, quase luxuoso.
Sabor certificado da Beira Interior
O azeite daqui tem denominação de origem protegida desde 1996 — Azeite da Beira Alta e Azeite da Beira Baixa, ambos sob o chapéu dos Azeites da Beira Interior DOP. No lagar cooperativo de Pousafoles, quando a azeitona cobrançosa cheira ainda fria da madrugada, o rendimento ronda os 18% de óleo. O Cabrito da Beira IGP, com registo desde 1996, pasta nas encostas que descem para o vale do Côa, alimentando-se de esteva e alfazema que depois se reconhecem na carne assada, tenra e perfumada. A região vinícola da Beira Interior produz tintos encorpados, capazes de aguentar o frio cortante dos invernos a esta altitude — o Quinta dos Termos, a 15 quilómetros, plantou os primeiros vinhedos em 1998 com syrah e touriga nacional.
No perímetro da Malceta
A Reserva Natural da Serra da Malceta estende a sua área de influência até estas terras — o limite sul fica a 3 quilómetros de Lomba, na crista do Monte de Santa Luzia. A paisagem é de montanha austera: granito à vista, vales profundos, silêncios densos quebrados apenas pelo vento ou pelo grito distante de um milhafre-real. Não há trilhos sinalizados nem praias fluviais promocionadas — o que há é a possibilidade de caminhar sem mapa turístico, seguindo caminhos de terra batida entre muros de pedra solta, cruzando ocasionalmente com António Marques que leva 80 cabras para o pasto das 6h às 18h, como faz desde 1974.
A noite cai depressa nestas altitudes. Quando o sino da igreja de Pousafoles — fundada em 1593 e reconstruída depois do terramoto de 1755 — toca as ave-marias, o eco propaga-se pelos três núcleos, ricocheteando nas fachadas de granito e xisto. É nesse instante — entre a última badalada e o silêncio que se segue — que se percebe a espessura do tempo acumulado nestas cumeadas raiana, onde cada pedra guarda a memória de um bispo, de um mineiro, de um touro solto na Capeia.