Artigo completo sobre Quadrazais: vacas bravas e silêncio na Serra da Malcata
Aldeia raiana do Sabugal onde a Capeia Arraiana irrompe uma vez por ano entre olivais e xisto centen
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A Capeia bate à porta de Quadrazais uma vez por ano, e então a aldeia de 380 habitantes transforma-se. As vacas correm soltas pelas ruas estreitas, os homens gritam, a adrenalina sobe até aos telhados de xisto. Mas fora desse dia — e são muitos os dias vazios aqui, a 828 metros de altitude —, o som dominante é outro: o vento que desce da Serra da Malcata e percorre os 4061 hectares de território como quem varre uma eira antiga.
Onde a Beira se inclina para a fronteira
Quadrazais pertence ao concelho do Sabugal desde a reforma administrativa de 1855, mas vive virada para a Reserva Natural da Serra da Malcata, essa mancha verde e agreste onde o lince foi observado pela última vez em 1992 e onde os ribeiros nascem frios. A densidade populacional diz tudo: 9,36 habitantes por quilómetro quadrado. Dito de outra forma: há mais espaço que gente, mais pedra que conversa, mais silêncio que pressa. Dos 380 residentes, 213 têm mais de 65 anos. Apenas 27 crianças frequentam a escola primária que ainda resiste no centro da aldeia. É uma aritmética dura, mas é também a realidade de quem escolheu ficar — ou de quem nunca partiu.
O território estende-se em ondulações suaves, pontuado por olivais centenários que produzem o Azeite da Beira Alta DOP, com acidez máxima de 0,3% e notas de tomate verde. As oliveiras crescem devagar nesta altitude, mas ganham carácter. Ao lado, pastam os rebanhos de cabrito que alimentam outra tradição certificada: o Cabrito da Beira IGP, assado em forno de lenha de carvalho até a pele estalar. A gastronomia aqui não é sofisticada — é honesta, directa, construída sobre o fogo e o tempo lento.
A Capeia que desafia o calendário
A Capeia Arraiana não é uma festa qualquer. É o momento em que Quadrazais respira fundo e desafia a gravidade demográfica. As vacas — bravas, nervosas — são soltas na rua principal que desce à igreja, e os homens enfrentam-nas à mão limpa, sem capas nem espadas. Não há arena, não há bilheteira: a aldeia inteira é o palco. É uma tradição partilhada com Sortelha, Vale de Espinho e outros lugares raianos, mas em Quadrazais mantém-se o ritual de abrir as portas das estrebarias ao entardecer, quando as vacas regressam do pasto.
Fora dessa efervescência anual, Quadrazais regressa ao seu ritmo mineral. Os dias sucedem-se entre o trabalho na terra, o cuidado dos animais, a manutenção das casas de granito e xisto que resistem ao frio cortante do Inverno. A Reserva Natural da Serra da Malcata fica ali ao lado, acessível pelo trilho PR3 que parte da porta da padaria — a única que ainda abre — e sobe até à Portela do Arneiro, onde se avistam os vales do Côa e do Meimoa.
O peso da altitude
A 828 metros, o frio instala-se em Outubro e demora-se até Maio. As manhãs de Janeiro chegam com geada que cobre os campos como uma mortalha branca, quebrando as canas das couves e endurecendo a terra. O verão aquece, mas nunca sufoca — as noites exigem ainda um casaco em Agosto. Esta é terra de transição, onde a Beira Interior se despede antes da fronteira, onde a vinha resiste em pequenas parcelas de jaen e rufete e onde o olival ainda dá fruto apesar do vento constante.
Ao entardecer, quando o sol se esconde atrás da serra e a luz rasante banha as fachadas de pedra, Quadrazais parece suspensa — não no tempo, mas na altitude, como se estivesse sempre a um passo de voar ou de se dissolver na paisagem. E talvez seja isso que a mantém: essa leveza frágil de quem sabe que tudo aqui depende da teimosia de ficar.