Artigo completo sobre Santo Estêvão e Moita: onde a Capeia Arraiana vive
Duas aldeias unidas pela serra da Malcata, azeite da altitude e tradições tauromáquicas ancestrais
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O grito seco ressoa no largo, seguido de um silêncio espesso que só a serra conhece. Depois, o tropel das patas na terra batida e o murmúrio de vozes que se ergue como fumo. A Capeia Arraiana não é espetáculo — é pacto antigo entre homem e touro, celebrado em pó e suor, quando a fronteira entre festa e risco se dissolve num instante que dura séculos.
A União das freguesias de Santo Estêvão e Moita nasceu em 2013 do encontro administrativo de duas aldeias que sempre viveram na mesma dobra da montanha, a 613 metros de altitude. São 327 habitantes dispersos por 2900 hectares de xisto e mato, onde cada casa de pedra escura parece esculpida pela mesma mão paciente que ergueu os muros de divisão dos lameiros. As ruas estreitas guardam o eco de ocupações romanas e medievais, mas aqui ninguém vive de passado — vive-se com ele, na espessura do granito das ombreiras e no frio que entra pelas frestas no Inverno.
Onde o mato se torna reserva
A Reserva Natural da Serra da Malcata começa onde a aldeia termina. Não há portões nem placas solenes — apenas a transição gradual do doméstico ao selvagem, do cheiro a lenha queimada ao aroma resinoso dos pinheiros e ao silêncio denso que só o vente ousa quebrar. Aqui, o lobo-ibérico deixa pegadas na terra húmida e as raposas cruzam os trilhos ao crepúsculo. Os percursos pedestres não são turísticos — são funcionais, desenhados por gerações que conheciam cada pedra, cada nascente, cada curva do vale.
Azeite que sabe a altitude
Na cozinha, o Azeite da Beira Alta escorre dourado e viscoso sobre o pão de milho ainda quente. Tem o travo ligeiramente amargo de quem cresce devagar, em solo pobre e ventos constantes. O Cabrito da Beira — IGP que aqui dispensa certificado porque toda a gente conhece o pastor e o rebanho — assa em fornos de pedra com alecrim colhido no monte. Não há menus nem esplanadas com vista: há mesas de madeira escura onde se come devagar, entre conversas pausadas e copos de tinto da região vinicola da Beira Interior.
O nome que ninguém esquece
Terreiro das Bruxas. O topónimo surge nos mapas do Instituto Geográfico do Exército desde 1952, mas nas noites sem lua ainda se contam histórias de mulheres que conheciam as ervas e os feitiços, que curavam e assustavam em igual medida. Verdade ou lenda, o nome persiste como cicatriz na geografia — prova de que nem tudo se apaga com o tempo ou com os censos que registam apenas 20 jovens e 182 idosos.
O touro recolhe à corte quando o sol desce atrás da serra. No largo, a terra batida conserva as marcas das patas e dos pés descalços. O vento leva o último grito, e fica só o cheiro a suor de animal e a poeira suspensa no ar morno — memória táctil de uma tarde que não precisa de explicação para quem a viveu.