Artigo completo sobre Seixo do Côa: onde o rio esculpe arribas de xisto
Entre o Côa e a Serra da Malcata, duas aldeias beirãs de granito e memória rural
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O vale acorda com o eco distante de um sino, o som viaja devagar entre arribas de xisto e granito até se diluir no murmúrio constante do rio Côa. Aqui, a 721 metros de altitude, o ar da manhã traz o cheiro a terra molhada e a esteva, e o frio húmido da Beira Interior cola-se à pele como uma segunda camada. Nas ruas de pedra de Seixo do Côa, as casas de granito cinzento e portas de madeira gretada pelo tempo parecem ter crescido da própria rocha, como se o lugar tivesse sido esculpido pela paciência de séculos.
Nas margens do Côa
O nome vem dos seixos rolados que o rio deixa nas margens, pedras lisas e brancas que brilham quando a luz rasante da tarde as apanha. O Côa atravessa a freguesia num vale profundo, criando arribas rochosas cobertas de matos baixos e olivais em socalcos. A paisagem é austera, sem concessões ao pitoresco — apenas o essencial: pedra, água, céu. Caminhar pelos trilhos rurais que ligam Seixo do Côa a Vale Longo é atravessar um território onde a natureza impõe as regras, onde o silêncio só é quebrado pelo vento nos pinhais ou pelo grito agudo de uma águia que rodopia lá em cima.
A poucos quilómetros, a Reserva Natural da Serra da Malcata estende-se como um refúgio de fauna autóctone. É território de lobo-ibérico e de aves de rapina, um mosaico de sobreiros, estevas e afloramentos rochosos onde a vida selvagem resiste. Os trilhos que sobem pela serra exigem pernas firmes e respiração funda, mas recompensam com vistas que varrem quilómetros de Beira Interior.
Memória rural
A união das duas freguesias, em 2013, juntou duas aldeias de história modesta mas enraizada no ruralismo beirão — pastorícia, agricultura de subsistência, isolamento geográfico. As igrejas paroquiais, dos séculos XVIII e XIX, erguem-se simples e sóbrias, sem dourados nem talha rebuscada. O que sobressai é o património etnográfico: espigueiros de granito, eiras batidas pelo vento, muros de pedra seca que sobem e descem o monte sem pressa.
Nas festas de verão, a Capeia Arraiana traz ruído e movimento às ruas desertas. As touradas à corda, os arraiais e os fogueiros reúnem quem ficou e quem voltou, numa celebração que é mais comunhão do que espetáculo. A música tradicional, os bailhos e o cheiro a lenha queimada enchem a noite, enquanto as mesas se cobrem de cabrito assado no forno, chanfana, migas com espargos e ensopado de borrego. O azeite da Beira Interior, denso e esverdeado, escorre sobre o pão ainda quente. Nas sobremesas, as filhós e as queijadas de requeijão completam a mesa, acompanhadas pelos tintos robustos da região.
Onde o vale respira
Com apenas 182 habitantes — sete crianças, noventa e nove idosos —, a freguesia respira ao ritmo de quem já não tem pressa. As ruas vazias ao meio-dia, o eco dos passos na calçada, o fumo que sai devagar das chaminés ao fim da tarde. Não há multidões, nem roteiros turísticos, nem hashtags. Apenas a presença física do lugar: o frio do granito debaixo das mãos, o sabor amargo da azeitona acabada de colher, o som da água do Côa que nunca para de correr. Quando a noite cai, as luzes escassas das casas piscam como vaga-lumes contra o negro absoluto da montanha.