Artigo completo sobre Sortelha: silêncio de granito a 794 metros de altitude
Aldeia medieval amuralhada na Serra da Malcata com 30 habitantes no núcleo histórico
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O primeiro som que se ouve não é som nenhum. É a ausência dele — um silêncio que não é ausência, mas presença: o mesmo que ouviu o alcaide Fernão Anes quando, em 1228, recebeu o foral de D. Sancho II e decidiu reforçar a torre do castelo. Sortelha não se anuncia. Descobre-se, pedra a pedra, no ritmo que o corpo aceita quando deixa de ter pressa.
A 794 metros de altitude, na vertente ocidental da Serra da Malcata, a freguesia abrange 3.942 hectares, mas o núcleo amuralhado — sete hectares de granito — abriga hoje 18 fogos permanentes. No recenseamento de 2021, eram 32 residentes. Quem entra pela Porta da Vila (data de 1238, com o arco ogival que ainda hoje se vê) passa sob um lintel onde se lê uma cruz latina gravada por mão de pedreiro medieval. Lá dentro, o castelo, Monumento Nacional desde 20 de Junho de 1931 (Decreto n.º 21 055), ergue-se com 17 metros de altura no torreão principal, construído sobre um outro anterior, muçulmano, que por sua vez se apoiava num castro do Bronze Final.
A cintura de pedra que respira
A cerca amuralhada tem 670 metros de perímetro, sete torres (duas delas cilíndricas, quatro prismáticas e a do relógio, acrescentada em 1640) e duas portas. Do passadiço de ronda, vê-se o vale do Côa a 3 km de distância e, no dia limpo, o torreão do Sabugal a 12 km. A pedra é granito de duas micas, extraído na própria serra: o mesmo que serve de base aos casais do concelho, com lajes de xisto do vale do Bazágueda como cobertura. No Inverno, quando a bruma sobe do rio Cesarão, as muralhas desaparecem e só o silêncio fica.
Uma fé de granito e cal
A Igreja Matriz de Nossa Senhora das Neves foi mandada construir por D. João de Menezes, alcaide-mor de Sortelha, em 1530. O portal manuelino é de 1542 — nota-se pela esfera armilar e pelo escudo com as cinco quinas que sobrepõem o de Menezes. Dentro, há um retábulo de talha dourada de 1698, atribuído ao mestre José Fernandes de Braga. A Capela de São João Baptista, junto à Porta do Concelho, foi erguida em 1289, logo após a reconquista cristã; ainda hoje se celebram ali três missas por ano: na véspera de São João, no dia 24 de Junho e na primeira segunda-feira de Agosto, quando se leva a imagem em procissão até à ermida de Nossa Senhora da Orada, construída em 1653 a 1,2 km da vila. O pelourinho, 2,10 m de altura, tem inscrição legível: «ERA DE 1563». Serveu como forca pública até 1834.
Forcões na calçada, fogo na noite
A Capeia Arraiana acontece no segundo fim-de-semana de Janeiro. A tradição vem de 1936, quando o abade José Correia permitiu que os forcões — estrutura de pinho-bravo com 4 metros, carregada por 12 homens — entrassem na vila para afastar um touro solto. Hoje, a corrida mantém-se dentro das muralhas: o percurso tem 480 metros, da Porta da Vila à Porta do Concelho, com o touro da herdade do Vale do Coelho. Em Agosto, a Feira Medieval ocupa 42 arraiais: há ceramista de São Pedro do Corval, ferreiro de Vilar Formoso, tecelão de Algodres. O licor de medronho é do destilar clandestino de 1962 do Zé Mário do Piódão, que ainda opera com alambique de cobre. Em Junho, a fogueira de São João é acesa no adro da capela com 3 toneladas de carvalho e sobreiro: a cinza serve para adubar os pomares de cereja da Ribeira da Vila.
Mesa de serra, forno de lenha
O cabrito é do criador Adelino Ribeiro, em Vale de Amoreira: IGP Beira, 45 dias, peso entre 6 e 8 kg, assado em forno de lenha de carvalho a 220 °C durante 2h30. A chanfana leva bode de 18 meses, marinado em vinho tinto da cooperativa de Vilar Formoso (casta rufete, 2019). O javali é abatido na época legal (15 de Outubro a 15 de Janeiro) na serra da Malcata; o ensopado leva 4 horas em tacho de ferro com cebola de Trancoso e batata de Saborinho. O queijo é o da Quinta da Lageosa, curado 60 dias em caves de granito a 12 °C. O queijadinho da receita original do Convento das Maltezas (fundado em 1657 em Viseu) aqui leva 12 gemas por cada massa. O vinho branco é síria da Casa da Passarela, colheita 2021, 12,5 % vol., altitude 700 m.
Trilhos de xisto, poços de cristal
O Trilho dos Ribeiros (PR4) tem 6,2 km e 220 m de desnível. Passa pelo moinho do Redondo, desactivado em 1953, com rodízio de madeira de castanho ainda intacto. O Poço da Pica fica a 1,8 km da vila: é um tanque de granito natural, com 4 metros de profundidade, onde a água mantém 8 °C mesmo em Agosto. A Reserva Natural da Serra da Malcata integra 1.211 hectares da freguesia; o último lobo-ibérico registado por câmara de vigilância foi em 2021, às 3h42, na encosta do Corro. Os sobreiros têm entre 150 e 200 anos; um deles, o “Soberbo do Cão”, tem 14,3 m de perímetro a 1,30 m do solo.
O que fica na pele
Quando o sol se põe atrás do Cerro da Vela, a torre do castelo fica dourada durante 7 minutos — o mesmo fenómeno que o pintor Carlos Reis registou em 1923 no quadro “Sortelha ao Entardecer”. O granito, aquecido o dia inteiro, liberta o calor à noite: basta colocar a mão na parede lateral da casa n.º 14 da Rua Direita, onde vive a D. Odete (87 anos, nascida no mesmo quarto onde nasceu a mãe em 1934), para sentir o tépido que vem de dentro da pedra. Fica o cheiro a esteva que o vento traz do souto abaixo, o ranger do postigo da Padaria do Zezé (aberta desde 1956, com forno de lenha aceso às 4h30) e a certeza de que estas trinta e duas pessoas guardam o mapa de algo que o resto do país já não sabe ler: a espessura de um muro pode ser uma forma de conforto, e o silêncio, quando é partilhado, deixa de ser ausência.