Artigo completo sobre Souto: onde o Côa corre sob arcos medievais de pedra
Ponte classificada, granito secular e pastorícia a 904 metros de altitude na Beira Interior
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O granito da ponte medieval reflete-se nas águas escuras do Côa, dois arcos desiguais que resistem ali há séculos, testemunhas mudas de transumâncias, invernos rigorosos a 904 metros de altitude. A água corre devagar entre arribas rochosas — mais devagar ainda depois da barragem de Sabugal — e o som é amplificado pelas paredes de pedra, como se o rio estivesse a contar segredo nenhum. Não há pressa em Souto: a densidade populacional, quatro habitantes por quilómetro quadrado, garante-o. E se vier no domingo, o café do Jorge abre às 10h, mas não garanto que o pastel de nata ainda esteja quente.
Pedra que fala, pedra que atravessa
A Ponte de Souto é Imóvel de Interesse Público, o que quer dizer que ninguém pode tocar-lhe, mas toda a gente a atravessa. Os dois arcos são como os irmãos mais velhos que tivemos: um é o "gajo grande", outro é o "gajo pequeno", ambos feitos para durar mais que as nossas dívidas. Do centro, se olhar montante, vê o vale onde o Côa faz curva e onde, dizem os mais velhos, o Francisco Vieira — o do lugar do Meio — foi pescar um sábado e só voltou na segunda, porque "a truta estava a dar luta".
A Igreja Matriz de São Miguel, reconstruída no século XVIII sobre alicerces medievais, está no alto como quem vigia a rua. Por dentro, o retábulo em talha dourada parece que foi polido por tantas mãos de velhas que já perdeu o brilho novo, mas ganhou outra coisa: o respeito. As casas senhoriais com brasões são agora casas de gente comuns — o brasão do Morgado está lá, mas por cima tem uma antena parabólica. A Capela de São Sebastião serve mais para abrigo de burros quando chove, e a da Senhora da Saúde é onde se vai prometer quando o neto tem exames.
Pastorícia, cabrito e vinho de altitude
Os espigueiros de pedra são os armazéns do Zé Mário: lá dentro tem milho para as galinhas e uma garrafa de bagaço que ninguém toca, porque é do "dia em que a Ana casou". O cabrito da Beira — o IGP que os de Lisboa pagam como se fosse ouro — aqui é o que sobra do baptizado. No forno de lenha da D. Alice, a pele crepita como rosquinhas de festa, e se chegar à hora certa, ela serve-o com batatas às rodelas e um naco de pão de centeio que o seu filho traz de Vilar Maior, porque "o forno daqui já não é o que era".
Souto está na Beira Interior, o que significa que o vinho tem de ser bom, senão ninguém bebe. Os tintos são como o Zé Eduardo: parecem duros, mas depois acalmam. O azeite escorre denso e amargo — é suposto ser assim, quem quer doce que vá para a pastelaria. Os cogumelos são assunto sério: só se fala deles depois de 15 de Outubro, quando o Adelino vai à serra de xisto e regressa com o chapéu cheio. Quem lhe pergunta onde, ele responde "lá para cima", e pronto.
Entre o Côa e a Malcata
A Malcata fica ao lado, mas para lá se vai de carro abanado ou a pé com muita vontade. O lobo uiva sim, mas quem o ouve são os caçadores que ficam à espera do javali. A águia-real paira, mas os que realmente a vêm são os ingleses que vêm de binóculos e mochila da Decathlon. Os trilhos de pastorícia servem agora para aterrar buracos: o Marco levou a mota e abriu caminho até ao curral do Valongo, onde agora se faz churrascada no Dia da Caça.
As praias fluviais são tanques de água fria entre pedras — perfeitas para curar ressaca. A luz da tarde faz o rio parecer mel, mas quem mergulha sabe que está gelado como a palavra da minha avó quando me apanhou a fumar aos 15.
Quando a raia se levanta
A Capeia Arraiana é tourada de corda nas ruas, mas é também o Zé da Tina a servir minis a 1,50 € até às quatro da manhã. A música sobe do alto-falante do carro de som que o Município alugou, e o cheiro a sardinha mistura-se com o do esterco — é o perfume da Beira. No dia 29 de setembro, a procissão de São Miguel sobe a rua acima, o padre vai de automóvel até meio, depois segue a pé, porque "o santo também cansa". Os sinos dobram como se a aldeia fosse dar com a língua nos dentes, e a D. Fernanda ainda consegue dizer "ó senhor guarda, não deixe o cão mijar na grade".
No verão, a romaria à Senhora da Saúde é caminhada de quem quer perder peso antes das festas. Os ex-votos lá estão: pernas de cera, fotos amarelas, uma dentadura que ninguém reclamou. No fim, distribuem-se bolos de festa e água-pé que o padre já não abençoa, mas que "faz bem à paciência".
O eco dos passos na ponte, o Côa a murmurar, o cheiro a lenha ao entardecer: Souto não espera ninguém, mas recebe quem chega. Basta não pedir Wi-Fi — isso ainda não chegou ao centro, e talvez seja melhor assim.