Artigo completo sobre Vila Boa: Aldeia de Xisto na Raia da Serra da Malcata
Vila Boa, no concelho do Sabugal, é uma aldeia de xisto a 769 metros de altitude, porta de entrada para a Serra da Malcata e terra de Capeia Arraiana, azei
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O sino da igreja bate três horas da tardes e o som —não eco, som— desce pela encosta abaixo, roçando os muros de xisto que ainda aguentam as marcas do martelo de 1958. Em Vila Boa, a 769 metros, o granito das paredes está quente como pão, mas a sombra do sobreiro da fonte mantém o cheiro à terra húmida de ontem. A galinha não é “uma galinha”: é a Preta, que só ponde atrás do depósito de água porque o neto do Zé Carlos a apanhava para lhe pôr uns elásticos nas patas.
Aqui moram 238 pessoas, mas no verão há mais. Vêm de França, trazem gel de banho nos compartimentos das autocaravanas e perguntam onde fica “o centro”. O centro é o banco de cimento em frente à papelaria que já não vende papel. A Capeia não é “festa de fronteira” — é o dia em que o António deixa o tractor estacionado no cruzamento para não estragar o recinto e a mulher do César serve caldo de farinha em tigela de barro, porque os pratos de plástico partem-se com a facilitação.
Onde a Malcata começa antes do cartaz
A Malcata não precisa de nome oficial: começa logo depois da última oliveira do Joãozinho, onde o caminho de terra faz uma curva e o cheiro a esteva quebra a respiração. Ninguém marca trilhos aqui — ou conhece ou leva mapa. O único sinal que importa é o pó branco nos sapatos quando se regressa. Lá em cima, o lince é um rumor: os caçadores dizem-no pelas pegas nos barros, os biólogos pelas câmaras que roubam fotografias às tantas. Águia-real só se vive mesmo quando ovelha morre; o resto do tempo são uns pontos no céu que até os velhos já não distinguem de avião.
O azeite não tem “travo amargo que arranha a garganta”. Tem gosto de azeitona madrugada, daquelas que se apanham com as mãos roídas do frio de Outubro. No lagar do Moço, ainda se usa esteira de palha; o óleo pinga para a tina de ferro e o cheiro impregna a camisola durante três lavagens. Cabrito não é IGP, é cabrito do Tonho — o que nasce em Fevereiro e come erva de monte até ao dia de São Mateus, quando a mãe do Tonho vai ao forno da aldeia antes das sete para marcar lugar. Leva sempre um pau de louro no bolso, “porque o forno esquece-se”.
Contas que a escola fechada ainda guarda
Dos 238, 71 já recebem pensão no café do Júlio, que abre às sete e meia para o leite quente e fecha às dez porque ninguém vem depois do telejornal. Dezassete crianças — não dezoito —, contadas ontem à porta da Igreja porque a Matilde trouxe a neta de Lisboa e isso não conta. A escola encerrou em 2009; agora é armazém da Câmara, cheia de sacos de sementes que ninguém planta. O pé de laranja que as crianças plantaram na véspera do fecho já dá sombra ao muro, mas ninguém come as laranjas — são azedas que nem as galinhas.
Inverno começa quando a porta do bar do Zé fica envidraçada de dentro para fora: é o vapor do café a bater no frio. A neve não cai todos os anos, mas o nevoeiro cai todos os dias de Dezembro, às cinco e meia, como o padre a bater à porta da velha para lhe trazer a comunhão. As pedras escurecem, os cães deixam de ladrar e só se ouve o ranger do cilindro da lenha a descer pela rampa. Quando o temporão vem de sítio nenhum, o regato das traseiras engrossa e leva os baldes que alguém se esqueceu de içar.
Ao entardecer, o melro não está no campanário — está no chão, a bicar bago de oliveira que caiu do cesto. Vila Boa não oferece nada, nem pede nada. Deixa ficar quem quer ficar, leva quem se cansa. A pedra, a altitude e a teimosia são o mesmo.