Artigo completo sobre Alvoco da Serra: Queijo, Silêncio e Altitude
Freguesia a 804 metros onde se produz Queijo Serra da Estrela DOP entre carvalhais e espigueiros
Ocultar artigo Ler artigo completo
O ar frio desce da cumeada e estabiliza nos lameiros junto ao Rio Alvoco. Às dez da manhã, o silêncio é tão denso que se ouvem as ovelhas mastigar. Os chocalhos das Bordaleiras soam como um relógio lento: um, dois, três... até o grito agudo da águia romper o ritmo. Alvoco da Serra não está a 804 metros de altitude; está suspensa no tempo. O verde dos carvalhais é um verde que se sente na garganta, o cinza dos espigueiros tem o mesmo tom das mãos que os construíram, e a cal das casas baixas descasca como pele após sol de Janeiro.
Queijo, ovelha e montanha
O queijo nasce na cave da D. Aurora, onde a porta range sempre no mesmo sítio. Lá dentro, o cheiro a leite coalho agarra-se à roupa — dias depois ainda se sente no casaco. Ela trabalha o leite com as mãos vermelhas, falando baixinho com a massa como quem acalma um filho. O cardo vem do quintal, seco ao sol da cozinha. O cinto de linho foi da avó, tem uma mancha que nunca saiu. O queijo cura durante semanas, virado todos os dias à mesma hora, como ritual. Quem chega perto, ouve primeiro o gotejar lento, depois sente o cheiro a terra molhada que entra pelas frestas.
À mesa, o queijo não se corta — abre-se com a colher, deixa-se escorrer para o pão escuro. O azeite é do Lagar do Ribeiro, trazido em garrafões de cinco litros que sobem a nora do pé direito. O vinho é do ano passado, ainda tem borras, bebe-se em copos pequenos que a avó guarda no armário de cima.
Trilhos entre espigueiros e levadas
O caminho para Loriga começa no Portinho, onde a estrada acaba em terra batida. Segue-se a levada durante vinte minutos — água fria que corre sobre os pés se os sapatos não forem altos — até ao primeiro espigueiro. Este tem a porta partida, dentro ainda se vê casca de milho aos bocados, amarela como o tempo. Mais acima, os sobreiros têm as iniciais dos pastores cortadas com faca: A.S. 1974. Quem não conhece, pensa que são iniciais de namorados. A geologia não se lê em placas; sente-se nos joelhos quando se desce para o Rio Alvoco sobre blocos de granite que escorregam se choveu na véspera.
Céu escuro, agenda vazia
Alvoco não tem festas — tem dias. O dia em que a Neusa faz anos e se come cabrito na casa dela, o dia em que o António traz o vinho novo e se bebe até tarde na oficina. À noite, o céu não é mapa; é abismo. Quem se deita no chão da eira, vê a Via Láctea como espelho partido. As aves de rapina desaparecem com o último lusco-fusco; substituem-nos os morcegos que entram na casa dos caseiros pela chaminé aberta.
Quando o sol baixa e o frio regressa aos lameiros, o som dos chocalhos vai-se afastando encosta acima. Fica o murmúrio da água nas levadas e, de vez em quando, o ranger de uma porta de espigueiro que alguém fecha devagar — o mesmo ranger de sempre, o mesmo alguém.