Artigo completo sobre Carragozela e Várzea: onde os sinos ecoam desde 1810
Sobreiros centenários, queijo DOP e chanfana de bode na Serra da Estrela
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O toque de sino da Igreja Matriz de Carragozela repete-se três vezes, eco de um aviso antigo que atravessou séculos desde que os franceses por cá andaram em 1810. O som desce o vale, sobe nas encostas de carvalho-alvarinho e sobreiro, chega ao Ribeiro de Meruge onde a água forma lagoas entre pedras de xisto. Aqui, entre os 400 e os 800 metros de altitude, o granito e a cortiça centenária definem a paisagem — 27 sobreiros com mais de duzentos anos, uma das maiores densidades do país, testemunham o peso do tempo sobre estas 546 pessoas distribuídas por pouco mais de mil hectares no Parque Natural da Serra da Estrela.
Quando a pedra fala
Carragozela deve o nome à junção de carra (pedra) e gozela (goela, na forma dialectal), geografia que se lê na própria língua. O topónimo árabe de Várzea de Meruge remonta à ocupação muçulmana, duas histórias distintas unidas administrativamente em 2013, mas entrelaçadas há séculos pela terra e pelos caminhos. A ponte romano-medieval sobre o Ribeiro de Meruge, com o seu arco ogival escurecido pelo musgo, continua a ligar as duas povoações como fazia quando os carros de bois rangiam sobre a pedra irregular. Na Capela de São Sebastião, edícula maneirista do século XVI, a luz da manhã entra pela porta entreaberta e ilumina o altar despojado — nada mais é preciso quando a arquitectura já diz tudo.
O queijo, o azeite e o fogo lento
No queijeiro artesanal, o leite coalhado ainda quente escorre entre os dedos do artesão que molda o Queijo Serra da Estrela DOP à mão, gesto repetido há gerações. A segunda semana de março traz a degustação pública, momento em que as adegas se abrem e o cheiro a cardo e a sal mineral invade as ruas. Mas é a chanfana de bode, cozinhada em forno de lenha durante horas, que define a gastronomia desta freguesia — a carne desfia-se sozinha, o molho escuro agarra-se ao pão de milho ainda tépido. No restaurante O Abegoaria*, a reserva é obrigatória porque o tacho não engana: ou se faz bem, devagar, ou não se faz. O rancho de feijoca com couve e enchidos fumados aquece as tardes frias de Inverno, enquanto o azeite da Beira Alta DOP, frutado amargo, tempera tudo o resto — até o requeijão tradicional acompanhado de doce de rosas.
*Nota: o nome parece ter um erro ortográfico mas é mesmo assim que está na placa.
Levadas, cascatas e o céu mais escuro
O trilho da Carragozela–Várzea de Meruge serpenteia por oito quilómetros entre muros de xisto e levadas onde a água ainda corre, alimentando os campos que São Sebastião abençoa todos os 20 de Janeiro. O percurso pedestre das Levadas da Meruge, mais curto — cinco quilómetros —, passa pelo moinho de água recuperado na Lapa, roda parada mas estrutura intacta, madeira gretada pelo tempo e pela humidade constante. No Ribeiro de Meruge, o mergulhão-pequeno mergulha em busca de alimento enquanto a pega-azul rasga o ar com o seu grito metálico. Ao final do dia, o Alto da Lapa transforma-se em miradouro sobre o vale do Mondego e, à noite, em janela para o cosmos — parceiro do projecto Dark Sky Aldeias, aqui a poluição luminosa não existe, só a Via Láctea rasgada sobre o granito frio.
Neve, memória e o menor cemitério
O Inverno de 1945 deixou neve no chão durante 67 dias consecutivos, registo que os mais velhos ainda relatam com precisão de quem teve de abrir caminho até à porta do celeiro. Carragozela possui o mais pequeno cemitério municipal do distrito da Guarda — apenas 480 metros quadrados —, espaço suficiente quando as famílias emigraram em massa nas décadas de 1960 e 1980, levando consigo 60 % da população. Ficaram os que não partiram e os que regressam, sobretudo em Agosto para a Festa de Nossa Senhora da Assunção, missa campestre seguida de arraial onde o vinho branco Dão de castas Encruzado e Malvasia corre solto.
Nos dias 5 e 6 de Janeiro, os grupos aldeãos do Cantar dos Reis percorrem as casas, voz grave e aguda alternando em cânticos que ninguém ensina — aprendem-se. Quando o último grupo se cala e a noite volta ao silêncio, só resta o murmúrio constante do ribeiro e, de vez em quando, o triplo toque de sino que atravessa o vale como aviso ou despedida.