Artigo completo sobre São Romão: Altitude e Granito na Serra da Estrela
Freguesia a 1096 metros onde o queijo DOP amadurece e as vinhas do Dão crescem no limite
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O granito ergue-se em planalto, a 1096 metros de altitude, onde o ar chega aos pulmões com uma secura fria que obriga a respirar fundo. São Romão estende-se nas encostas altas da Serra da Estrela, território de extremos onde o inverno morde a pele e o verão aquece a pedra até quase queimar ao toque. Aqui, a densidade populacional — 161 habitantes por quilómetro quadrado — não traduz aglomeração urbana, mas antes um povoamento disperso que se adapta à topografia agreste, casas de xisto e granito aninhadas entre socalcos e pastagens.
Altitude e Sustento
A elevação condiciona tudo. Os 2253 hectares da freguesia inscrevem-se no Parque Natural da Serra da Estrela e no Geopark Estrela, reconhecido pela UNESCO, territórios onde a geologia aflora em cada afloramento rochoso, em cada muro de contenção construído há gerações. As vinhas da região do Dão crescem aqui no limite da viabilidade, expostas a amplitudes térmicas brutais que concentram açúcares e acidez nas uvas. O vinho que nasce destas encostas carrega a aspereza e a persistência do lugar.
A gastronomia ancora-se na pastorícia. O Queijo Serra da Estrela DOP — massa amanteigada de leite cru de ovelha Bordaleira, coalho vegetal de cardo — amadurece em caves frescas onde a humidade se mantém constante. O Requeijão Serra da Estrela DOP, cremoso e ligeiramente ácido, acompanha o pão de centeio denso que resiste ao tempo. O Borrego Serra da Estrela DOP e o Cabrito da Beira IGP pastam entre urzes e carqueja, carne magra que guarda o travo selvagem da montanha. Nas cozinhas, o Azeite da Beira Alta DOP, extraído de oliveiras que resistem ao frio, tempera ensopados lentos que aquecem o corpo quando lá fora a geada cobre os campos.
Comunidade em Transformação
Os números do censo de 2021 desenham uma realidade demográfica clara: 2902 habitantes, dos quais 822 têm mais de 65 anos e apenas 324 não ultrapassaram os 14. A proporção inclina-se para o envelhecimento, mas a presença de doze alojamentos turísticos — apartamentos, moradias, quartos, estabelecimentos de hospedagem — sugere um movimento lento de procura por quem valoriza altitude, silêncio e proximidade ao Parque Natural.
Não há aqui a espectacularidade instantânea de miradouros icónicos ou monumentos tombados em guias internacionais. A paisagem é austera, construída em camadas lentas: muros de pedra seca que sobem a encosta, caminhos calcetados pelo uso, fontanários onde a água desce gelada da serra. O quotidiano organiza-se em torno de ciclos agrícolas e pastoris que não cederam completamente à modernização. O fumeiro ainda funciona em algumas casas, enchidos pendurados sobre brasas de carvalho que ardem devagar, libertando um fumo denso que impregna a carne e se espalha pela aldeia em manhãs sem vento.
Onde a Serra Respira
Caminhar por São Romão exige pernas habituadas ao desnível. Os trilhos que cortam a freguesia sobem e descem sem contemplações, seguindo linhas de água ou cumeadas expostas ao vento. No Inverno, a neve cobre tudo durante semanas; no Verão, a luz é tão intensa que obriga a cerrar os olhos. A vegetação rasteira — giestas, tojos, urze — cobre as zonas onde o solo é demasiado pobre para cultivo, um manto verde-acinzentado que muda de tom conforme a estação.
A noite aqui é preta e sonora. Sem poluição luminosa, as estrelas desenham-se nítidas sobre o planalto. O silêncio não é total: há o vento constante que assobia entre frestas de granito, o ladrar distante de cães de gado, o tilintar ocasional de chocalhos que marcam o movimento invisível de ovelhas nas pastagens altas. É uma paisagem que não se oferece facilmente, que pede tempo e disponibilidade para ser lida nas suas texturas ásperas e nos seus ritmos lentos — o fumo que sobe direito de uma chaminé ao amanhecer, o cheiro a terra molhada depois da chuva, o peso do silêncio quando o vento finalmente acalma.
Nota: A população de São Romão diminuiu 12% entre 2011 e 2021, perdendo 390 habitantes em uma década. A escola do lugar fechou em 2018, juntando-se à EB1 de Seia. Hoje, as crianças fazem 18 km diários de transporte escolar.