Artigo completo sobre Sazes da Beira: onde o xisto guarda séculos de vida
Aldeia serrana entre Sazes Velho e o Monte Alto, com romaria de agosto e chanfana no alguidar
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O fumo sobe direito da chaminé de xisto, dissipa-se devagar no ar frio da manhã. Nas traseiras da casa, alguém corta lenha — o som do machado ecoa pelo vale, bate nos socalcos onde os muros guardam a geometria antiga dos campos. Sazes da Beira acorda assim, com gestos que não mudaram de século, numa altitude onde o ar cheira a resina de pinheiro e a terra molhada dos ribeiros que descem para o Alva.
A aldeia que hoje se vê nasceu no início do século XVIII, mas a história começou três quilómetros acima, no lugar que ainda se chama Sazes Velho — um núcleo do século XV abandonado quando as gentes desceram para fundar a povoação atual. Em 1731 ergueu-se a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, com um altar gótico que sobreviveu às reformas barrocas. Mais tarde, já em 1906, construiu-se a Capela de Nossa Senhora do Monte Alto, no alto da encosta, de onde se avista a Torre da Serra da Estrela recortada contra o céu. É para lá que sobe a romaria no penúltimo domingo de agosto, procissão lenta de gente que caminha entre o perfume dos trevos silvestres e o canto das cotovias.
Memória de pedra e pão
Os romanos já andaram por aqui no século V a.C., atrás de minerais metálicos. Deixaram minas que hoje se escondem na vegetação, túneis estreitos onde a humidade forma cristais nas paredes. Mais visíveis são as quintas da Ribeirinha e da Ribeira, desabitadas mas ainda de pé, com os muros de xisto a resistir ao abandono. Sazes perdeu dois terços da população desde os anos 1960 — das 670 pessoas de então restam agora 245, a maioria com mais de sessenta e cinco anos. Mas o que se perde em número ganha-se em densidade de memória: no núcleo museológico da Junta expõem-se alfaias agrícolas, fotografias a sépia onde se reconhecem os mesmos caminhos que ainda hoje se percorrem.
À mesa da serra
A chanfana de cabrito coze devagar no alguidar de barro, vinho tinto da região do Dão a envolver a carne até ela desfazer-se. Na mesa aparecem também a feijoada de borrego Serra da Estrela DOP, os enchidos — morcela escura, farinheira clara, chouriço com páprica —, o pão de centeio denso que se corta à faca. No Outono, a sopa de castanhas aquece as mãos e o estômago. Sobremesa: bolo de fubá amarelo-dourado ou rebuçados de pinhão, doces que guardam o sabor resinoso da floresta. Acompanha tudo o azeite DOP Beira Interior, verde e picante, e fatias grossas de queijo Serra da Estrela que escorrem ao corte.
Trilhos entre ribeiros e estrelas
O Trilho dos Sazes liga, em cinco quilómetros, a capela do Monte Alto à aldeia velha. O caminho sobe entre soutos de castanheiros centenários, atravessa pastagens onde o gado pasta solto, contorna afloramentos de xisto que brilham ao sol. Nos ribeiros de Sazes e Sazes Velho, a água corre transparente sobre pedras redondas — habitat de aves que os observadores procuram ao amanhecer. À noite, longe de qualquer poluição luminosa, o céu abre-se constelado, Via Láctea nítida de horizonte a horizonte.
Quando o último sino toca na torre da igreja, o eco demora segundos a perder-se entre os montes. É nesse intervalo — entre o som e o silêncio — que Sazes da Beira se revela inteira.