Artigo completo sobre Teixeira: Xisto e Pastoreio na Serra da Estrela
Freguesia de 144 habitantes preserva tradições de queijo DOP a 497 metros de altitude na Guarda
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A estrada sobe entre pinheiros e carvalhos, o asfalto estreitando-se até quase desaparecer na paisagem. Ao fundo do vale, o rio Alva desenha uma linha prateada que reflecte o céu. Teixeira aparece assim, sem anúncio — um punhado de casas de xisto e granito agarradas à encosta, a 497 metros de altitude, onde o silêncio tem peso e textura. É território do Parque Natural da Serra da Estrela, onde a montanha dita o ritmo das estações e o vento do norte traz sempre o cheiro a resina.
No sopé da montanha
A freguesia estende-se por 1592 hectares de vales e encostas, território marcado pela presença ancestral do pastoreio. Os 144 habitantes — na sua maioria acima dos 65 anos — conhecem cada recanto desta terra, cada nascente, cada atalho entre os socalcos onde ainda se cultivam batatas e centeio. As casas agrupam-se em núcleos pequenos, construídas com o granito extraído destas mesmas montanhas, paredes grossas que guardam o calor da lareira no Inverno e mantêm o fresco nos dias de Agosto.
Integrada no Geopark Estrela, classificado pela UNESCO em 2020, Teixeira vive da relação directa com a geologia que a sustenta. A água corre abundante pelas ribeiras, alimentando os lameiros onde pastam os rebanhos de ovelhas e cabras que dão origem ao Queijo Serra da Estrela DOP e ao Requeijão Serra da Estrela DOP. O leite é ordenhado ao amanhecer, quando o frio ainda morde as mãos, e transformado segundo métodos que atravessaram gerações — a flor do cardo a coalhar o leite morno, as mãos experientes a moldar a massa cremosa.
À mesa da serra
A gastronomia aqui não se inventa — nasce da necessidade e da sabedoria de aproveitar o que a terra e o rebanho oferecem. O Cabrito da Beira IGP assa lentamente no forno de lenha, temperado apenas com sal grosso, alho e um fio de Azeite da Beira Alta DOP, produzido nas encostas mais baixas onde as oliveiras ainda resistem ao frio. O Borrego Serra da Estrela DOP, criado em liberdade nos pastos de altitude, chega à mesa com o sabor concentrado das ervas aromáticas que crescem entre as rochas. São pratos densos, pensados para corpos que trabalham ao ar livre, que enfrentam o granizo de Março e o sol cortante de Julho.
A região vinícola do Dão estende-se até aqui, embora as vinhas prefiram cotas mais baixas e protegidas. Mas o vinho chega às mesas locais, acompanhando as refeições demoradas onde se fala pouco e se come devagar, respeitando o tempo que cada ingrediente exigiu para chegar ao prato.
Ritmo de aldeia
Duas unidades de alojamento — uma moradia e um estabelecimento de hospedagem — recebem quem procura o contacto directo com a montanha sem intermediários. Não há multidões, não há filas. A densidade populacional de nove habitantes por quilómetro quadrado garante que o encontro com outro caminhante seja evento raro nos trilhos que sobem em direcção aos cumes.
O granito aquece ao sol da tarde, irradiando calor quando já as sombras começam a esticar-se pelo vale. Ao longe, o sino da igreja — reedificada em 1942 após o incêndio que destruiu o templo original do século XVIII — marca as horas. Um som que atravessa quilómetros sem obstáculo, ecoando nas encostas até se perder no murmúrio constante da água que desce da serra.