Artigo completo sobre Travancinha: entre rios, queijo e pedra mourisca
Freguesia serrana onde o azeite novo arde na garganta e os carvalhos cobrem as arribas do Alva
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O fumo do lagar sobe devagar na manhã fria, encontra-se com o nevoeiro que ainda não se decidiu a descer da serra. Há um cheiro a lenha de carvalho e a azeite novo, esse aroma acre que arde na garganta antes mesmo de provar. Travancinha acorda tarde, ao ritmo dos sinos de S. Pedro que dobram sobre o xisto cinzento das casas, sobre os muros de pedra solta que sobem a encosta. A 374 metros de altitude, entre o Rio Alva e o Rio Seia, a freguesia respira pelo compasso lento das águas que correm entre arribas cobertas de carvalhal.
Pedra, queijo e fé
A igreja matriz ergue-se no centro da aldeia, nave única setecentista com retábulo em talha dourada que apanha a luz oblíqua da tarde. No adro, o cruzeiro de 1782 marca a entrada na freguesia — granito frio ao toque, musgo verde nos sulcos das letras. Mais acima, no lugar de Mesquitela, a capela de S. Bento guarda o segredo de uma antiga mesquita rural, prova mourisca antes da Reconquista. Na Segunda-feira de Páscoa, a procissão desce o caminho de terra batida, os fiéis carregam ramos de loureiro e sobem à capela para a missa campal. Depois, na casa do povo, servem-se papas de milho com mel — a colher raspa no fundo da tigela de barro, o açúcar queimado adere aos dedos.
O sabor da serra
O cabrito estonado assa na brasa, marinado em alho, louro e vinho branco do Dão. A gordura escorre, estala, deixa um rasto de fumo que se mistura com o cheiro a lenha de sobreiro. Travancinha vive do queijo Serra da Estrela DOP, fabricado entre novembro e março com flor de cardo — pasta amanteigada, sabor suave que se espalha no pão caseiro. Nas queijarias artesanais da Rota do Queijo, as mãos amassam a coalhada dentro de cintos de linho, prensam devagar, viram os queijos em prateleiras de madeira escura. O azeite da Beira Interior DOP, extraído da azeitona cobrançosa no lagar cooperativo, arde na garganta e perfuma as sopas de castanha que fumegam nas noites de Inverno.
Trilhos e silêncios
O percurso PR4 «Entre Rios» parte da igreja matriz, atravessa o Rio Seia por uma ponte de pedra onde a água corre cristalina sobre seixos redondos. Oito quilómetros de subida suave até ao miradouro do Penedo do Gato, onde a vista se abre sobre a Serra da Estrela — pinheiros bravos recortados contra o céu, arribas xistosas que descem em degraus irregulares. No caminho, espigueiros em pedra e madeira, pequenos lagares de azeite abandonados, muros de sequeiro cobertos de líquenes amarelos. O silêncio é denso, interrompido apenas pelo grito de uma águia-de-asa-redonda que risca o azul.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante incendeia o granito das casas, ouve-se o som das concertinas nos serões de Verão — notas agudas que sobem a encosta, ecoam nos vales, misturam-se com o murmúrio da água e o cheiro a chouriça no fumeiro. Travancinha guarda-se assim, entre o queijo que amadurece nas caves e o azeite novo que arde na língua.