Artigo completo sobre Vila Cova à Coelheira: Pelourinho, Ponte e Rio Covo
Antiga vila com foral manuelino, praia fluvial e memória judaica na serra de Seia
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A praia fluvial estende-se ao longo do rio Covo, água gelada que magoa os pés nos primeiros segundos. De manhã cedo, quando o nevoeiro ainda não se ergueu, há quem se atreva a mergulhar, mas a maioria espera que o sol aqueça a pedra para estender a toalha. Os amieiros fazem sombra onde as crianças comem pão com chouriço, miolo a escorrer-lhes pelos dedos. Ao fundo, a ponte de 1602 — que todos chamam romana, sabendo que não é — tem uma pedra solta que faz trec quando pisada. É aqui, a 329 metros de altitude, que Vila Cova à Coelheira se mostra: não pela pompa, mas pela resistência de quem fica.
O peso da história numa aldeia serrana
O pelourinho manuelino está lá, no largo onde os velhos jogam sueca à sombra. Classificado como Imóvel de Interesse Público, mas para os 355 habitantes é sobretudo o sítio onde se encontram antes de ir para o café. Até 1836 era cabeça de concelho — depois disso, ficou o que ficou: a Casa da Comenda com a porta sempre fechada, a sinagoga convertida em centro de memória que abre quando há visitas marcadas, e as iniciais "S.C." entalhadas na pedra de uma casa vizinha à igreja, que ninguém sabe bem o que querem dizer.
Entre o Dão e a Serra da Estrela
Os soutos de castanheiro são mais que paisagem — são onde se vai buscar a lenha para o Inverno e onde, em Outubro, se apanham os primeiros cogumelos. Nas vinhas, que ainda se plantam em socalcos, o vinho é feito como sempre: pisado a pé, fermentado em lagares de granito. Nas cozinhas, o cheiro a chanfana aderido às paredes de barro nunca desaparece completamente. O queijo da Serra compra-se à porta das casas — ainda mole, a escorrer pela palma da mão quando mal se corta a foice.
Quando a adrenalina encontra a montanha
Desde 2022 que os fins-de-semana de Verão trazem gente de capacete colorido que fala em voz alta e bebe cerveja no único bar com esplanada. A pista de downhill corta o monte onde os miúdos costumavam fazer carrinhos de rolamentos — agora é um traçado de terra batida com nomes de origem inglesa que ninguém aqui sabe pronunciar direito. Em Março, o burro do Sr. António assusta-se com o barulho das correntes das bicicletas a descer. O resto do ano, volta a ser só o sino da igreja a marcar as horas.
O rio que deu nome à vila
O Covo corre entre pedras onde as crianças aprendem a apanhar enguias com as mãos. "Coelheira" vinha dos coelhos que abundavam — hoje só se vêem quando alguém os cria no pátrio para a páscoa. Aquilino Ribeiro chamou-lhes "Terras do Demo", mas quem cá nasceu sabe que o demo é sobretudo a neve que corta a estrada no Inverno e a falta de médico quando se parte uma perna. Ainda assim, há tardes de Agosto em que o silêncio é tão completo que se ouvem as abelhas a trabalhar nas rosas-bravas. É nessas horas que a pedra das casas, aquecida pelo sol do dia, se torna dourada como se fosse outra coisa — mas é sempre a mesma, e amanhã voltará a ser cinzenta quando o nevoeiro descer do alto.