Artigo completo sobre Castelo Melhor: muralhas de xisto sobre o vale do Côa
Aldeia medieval na Guarda com 168 habitantes, fortaleza do século XIII e silêncio sobre as vinhas
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O primeiro som é o vento. Não é brisa — é corrente que sobe do Côa e bate na muralha como quem bate à porta de casa. Depois, nada. Um silêncio tão grosso que se ouve o próprio corpo: o sangue nas têmporas, o raspar das solas na terra batida, o estalar de um ramo seco de amendoeira. Castelo Melhor recebe quem chega assim — não com ruído, mas com a falta dele.
A aldeia está a 420 metros, numa festa de patamares onde vinhas, oliveiras e amendoeiras se sucedem como bancada de café. Cem e sessenta e oito pessoas, dizem os papéis. Noventa e três têm mais de sessenta e cinco anos; cinco ainda não chegaram aos quinze. Cada porta fechada, cada banco de granito vazio junto à igreja, cada muro de pedra solta coberto de líquenes conta a mesma história: a de um lugar que não se esvaziou por falta de carácter, mas porque o mundo lá fora ficou maior.
A fortaleza que quis ser melhor
Dizem que o nome nasceu de uma aposta de esplanada: “vamos fazer um castelo melhor que o da Calábria”. Subiu no século XIII, sob D. Afonso VII de Leão, que deu foral para segurar a fronteira. D. Dinis mexeu-lhe mais tarde. Hoje, a torre de menagem e as muralhas em xisto e granite aguentam-se com a teimosia de quem já viu tudo. A pedra é rugosa e quente — apanha sol o dia todo e vai largando-o ao entardecer, como o forno da padaria depois de fechar. Subir ao cimo ao fim do dia é ver o vale trocar de camisa: o verde-cinza das oliveiras torna-se ocre, o rio desenha um fio de prata, e as encostas parecem ir abaixo como nós depois de três cervejas.
Sulcos na rocha, memória no mundo
O Côa guarda gravuras com a idade dos nossos avós vezes mil. Castelo Melhor entra no pacote UNESCO. Os abrigos rochosos têm cavalos, auroques e cabras-montesas rabiscadas no xisto. Os guias gostam de levar gente ao pôr do sol, quando a luz rasante enche os sulcos e as figuras parecem mexer-se. A entrada é pelo Museu do Côa, mas é aqui, com cheiro a esteva e terra seca, que as gravuras deixam de ser fotocópia e passam a ser vizinhas. A paisagem do Alto Douro Vinhateiro — também ela Património — envolve a freguesia, confirmando que este canto acumula tachos de fama que o tamanho não fazia prever.
Amendoeiras em flor e caminhos de pé-posto
De fevereiro a março, as encostas parecem ter esquecido que é Inverno: cobrem-se de branco e rosa como se a neve se tivesse enganado na porta. É altura de fotógrafos de Lisboa e caminhantes alemães descobrirem os trilhos que descem até ao rio, passando por hortas onde a água corre em canos de cimento. O Caminho de Santiago — Via Lusitana — atravessa a aldeia, e quem o faz leva as amendoeiras como quem guarda número de telefone de quem gostou.
Queijo Terrincho e jeropiga junto ao fogo
A mesa de Castelo Melhor não quer surpreender — quer sustentar. Ensopado de borrego com azeite DOP que brilha como medalha. Migas com espargos que sabem a trabalho. Queijo Terrincho DOP que se parte ao estalo da faca e deixa na boca gosto a ovelha e a pasto seco. Amêndoa Douro DOP em travesseiros que se desfazem entre os dedos. Mel da Terra Quente para adoçar o que o frio da manhã amargou. Azeitona Negrinha de Freixo DOP em tigelas de barro, negra como café sem leite. Vinhos do Porto e Douro que se provam copo a copo, sem pressa nem PowerPoint.
No Magusto, a Junta acende a fogueira no largo e distribui castanhas e jeropiga. Os rostos iluminados pelo fogo são quase sempre os mesmos — vizinhos que se conhecem desde que os telefones tinha fio. Partilham o autocarro gratuito bimensal até à feira de Vila Nova de Foz Côa e, uma vez por ano, vão todos juntos a alguma romaria, mantendo viva uma coesão que os números tornariam improvável.
A padroeira e a permanência
A Festa de Nossa Senhora da Veiga é o dia grande. A procissão percorre ruas onde as soleiras estão polidas por séculos de passagem. Missa campal ao ar livre, sem frescuras. O arraial que se segue é modesto como tabuleiro de tasca — música, conversa, fumo de churrasqueira e cheiro a lenha. Ninguém faz questão de Instagram.
Há um único alojamento na freguesia — uma casa que alugam por fora. A escassez não é defeito: é filtro. Quem dorme em Castelo Melhor fá-lo porque quer, sabendo que a recompensa não está no cardápio, mas no que fica: o calor da pedra à tarde, o perfume das amendoeiras, e aquele assobio do vento na muralha — som que não existe em lado nenhum, que não se grava no telemóvel, e que só se apanha ali, naquele ponto onde o vale aperta e a pedra responde como velho que já não se abana com nada.