Artigo completo sobre Custóias: aldeia de pedra e fé no Douro Superior
191 habitantes vivem entre vinhas em socalcos e olivais na rota jacobeia da Via Lusitana
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O sol da manhã aquece as pedras da calcada junto à Igreja Paroquial de Custóias. O granito absorve a luz lentamente, enquanto o sino marca as horas num ritmo que parece desenhado para outra época. A 566 metros de altitude, no coração do Douro Superior, esta freguesia de 191 almas vive suspensa entre os terraços de vinha que descem em degraus até ao vale e os olivais prateados que tremem ao vento. O silêncio aqui tem densidade — só quebrado pelo murmúrio distante de água ou pelo ladrar de um cão algures na encosta.
A devoção que atravessa séculos
A igreja medieval, reformada ao longo dos tempos, guarda no seu interior a devoção a Nossa Senhora da Veiga. A padroeira dá nome à capela que se tornou centro de peregrinação regional, onde as paredes de cal branca refletem a luz crua do Verão. Uma vez por ano, a Festa de Nossa Senhora da Veiga traz procissões e missas solenes, enchendo de vozes e passos os caminhos que nos restantes dias conhecem apenas o trânsito solitário dos habitantes. O arraial espalha cheiro a sardinha assada e vinho tinto, enquanto as tradições centenárias ganham corpo na repetição exacta dos gestos — as mesmas orações, os mesmos cânticos, a mesma fé transmitida de geração em geração.
Nos passos dos peregrinos
O Caminho de Santiago — Via Interior da Lusitana — atravessa Custóias como um fio invisível que liga o presente ao passado. Os peregrinos sobem e descem entre os socalcos, as botas levantando pó ocre no Verão ou afundando na terra molhada do Inverno. As vistas panorâmicas sobre o vale do Côa revelam-se em cada curva: vinhas geometricamente dispostas, aldeias brancas poisadas nas encostas, o rio lá em baixo como uma fita prateada. O microclima mediterrânico continental aquece a pele mesmo quando o vento sopra frio das montanhas.
Sabores com denominação de origem
Na cozinha das casas, o azeite de Trás-os-Montes escorre dourado sobre o pão escuro. A Amêndoa Douro estala entre os dentes, o Queijo Terrincho liberta o aroma intenso do leite de ovelha, o Mel da Terra Quente adoça as sobremesas. Nas mesas das festas, o cabrito assado ganha crosta no forno a lenha, os enchidos pendem dos fumeiros deixando escapar o perfume da carne curada. A Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo acompanha o vinho da região — Porto ou Douro, sempre generoso, sempre enraizado nesta terra classificada pela UNESCO como Alto Douro Vinhateiro.
Ecos do paleolítico
A proximidade com o Parque Arqueológico do Vale do Côa imprime à paisagem uma dimensão temporal vertiginosa. Embora os sítios de arte rupestre classificados pela UNESCO não estejam na freguesia propriamente dita, a consciência de que há milénios outros humanos gravaram cavalos e cervos nas rochas vizinhas colore diferentemente cada pedra, cada afloramento de xisto. Os 99 idosos que hoje habitam Custóias — contra apenas três jovens — são eles próprios guardiães de uma memória que se apaga devagar, como os traços paleolíticos sob a erosão do tempo.
O cheiro a lenha sobe de uma chaminé ao entardecer. Algures nos olivais, as cigarras começam o seu canto mecânico. A pedra da igreja arrefece lentamente, devolvendo ao ar o calor acumulado durante o dia.