Artigo completo sobre Numão: Pedra, Altitude e Memória no Vale do Côa
Capela, torre medieval e amendoais a 563 metros na serra de Vila Nova de Foz Côa
Ocultar artigo Ler artigo completo
O sol da manhã entra pela porta entreaberta da capela de Nossa Senhora da Veiga e desenha um rectângulo de luz sobre o chão de pedra. Lá fora, o silêncio da serra só é interrompido pelo canto distante de um melro e pelo vento que passa devagar entre os amendoais. Numão estende-se pelos 563 metros de altitude como quem respira sem pressa, num território onde o Vale do Côa esculpiu a paisagem tanto quanto a mão humana esculpiu a história nas rochas há milhares de anos.
O peso da pedra e do tempo
A Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Assunção está onde sempre esteve - mesmo antes de haver estrada alcatroada, mesmo antes de haver luz eléctrica. As paredes de metro e meio de espessura guardam o frescor mesmo quando o calor de Julho aperta lá fora, um truque que as avós explicam como se fosse óbvio: "é a pedra, filho, a pedra é que sabe". Ao lado, a torre medieval que figura no brasão de armas da freguesia lembra que este território foi vigiado, defendido, habitado com propósito. O granito aqui não é apenas material de construção — é a própria memória física do lugar, cada pedra uma testemunha muda de gerações que passaram, plantaram, colheram.
Os peregrinos que seguem o Caminho Interior da Via Lusitana atravessam Numão com os pés já cansados e os olhos ainda atentos. Há qualquer coisa na disposição das casas, na inclinação das ruas, que convida a parar mais tempo do que o planeado. Talvez seja a luz, talvez o facto de aqui viverem apenas 210 pessoas — dezasseis delas crianças, setenta e oito com mais de sessenta e cinco anos — e isso criar um ritmo próprio, uma cadência que não se apressa por ninguém.
Sabores que enraízam
Não há restaurantes. Há é a casa da Dona Aurora que, se lhe baterem à porta à hora certa, serve uma sopa de castanhas que faz esquecer o frio. A amêndoa Douro DOP estala entre os dentes com aquele travo adocicado que só a altitude e o sol transmontano conseguem dar - prova num fim de tarde de Outubro, quando os oleiros estão a secar no terreiro, e percebe. O azeite de Trás-os-Montes DOP escorre denso sobre o pão caseiro, e a azeitona de conserva negrinha de Freixo DOP — pequena, escura, intensa — acompanha o queijo Terrincho DOP, esse disco compacto de sabor a pasto e a sal. O mel da Terra Quente DOP, espesso como âmbar, fecha a refeição com a doçura concentrada de mil flores silvestres. Leva um pote na mochila. Dura o ano todo e em Janeiro, quando estiver em Lisboa a olhar para o trânsito, lembra-o disto.
Entre vales e gravuras
Caminhar pelos trilhos rurais que descem em direcção ao Vale do Côa é entrar numa galeria a céu aberto. Não é preciso ser arqueólogo - basta prestar atenção às pedras xistosas que afloram nos socalcos, as mesmas que os nossos antepassados escolheram para desenhar cavalos e bois há 20.000 anos. O trilho do Carrical, que desce até ao rio, leva uma hora e meia e vale pelo cheiro a esteva sozinha. Leve água. Leve também um pedaço de pão - não para comer, mas para deixar na cumeada como fazem os pastores. Ninguém sabe bem porquê, mas faz-se sempre.
A romaria que ancora o ano
Na Festa de Nossa Senhora da Veiga, que é no segundo domingo de Setembro, a aldeia acorda de outra maneira. Os sinos da capela tocam desde cedo - não os da igreja matriz, esses são mais novos e soam a ferro. Os que se ouvem na romaria são os da capela, fundos, como se viessem debaixo da terra. As mulheres trazem flores frescas, e o cheiro a cera de vela mistura-se com o dos assados que vão saindo das cozinhas. É o momento em que os que partiram regressam, em que as 210 almas residentes se multiplicam por memórias e afectos. O cabrito é do Zé Mário, que mata um todos os anos para a ocasião. O vinho é daquele que fazem ainda nas traseiras de algumas casas - não é DOP, não é DOC, é só vinho. Beba um copo e verá como o tempo muda de velocidade.
Ao cair da tarde, quando o sol roça o topo da serra e tinge de ocre as paredes caiadas, ouve-se o arrastar lento de uma cadeira na soleira de uma porta. Alguém senta-se a ver o dia acabar. O vento traz o cheiro a terra seca e a amendoeira. Nada mais acontece. E é exactamente isso que Numão oferece: a espessura de um presente sem urgências.