Artigo completo sobre Seixas: solar barroco e xisto nas encostas do Douro
Freguesia medieval com foral de 1262, amêndoa DOP e romarias centenárias junto ao rio
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O sol bate na pedra do Solar da Família Aguilar e a varanda barroca, com a sua curva do século XVIII, desenha uma sombra ondulante sobre a calcetada. O brasão de armas parece vigiar a rua, testemunha silenciosa de séculos de vindimas e colheitas de amêndoa. Em Seixas, o xisto aflora por todo o lado — nas paredes dos socalcos, nos muros baixos que dividem os quintais, no próprio nome da terra, que vem do latim saxa e diz exactamente o que é: pedra.
Quando D. Afonso III assinou o foral
Foi em 1262 que o rei concedeu foral a esta povoação, marcando a sua emancipação formal. Mas já no século X havia gente a lavrar estas encostas viradas ao Douro. No final de Setecentos, o capitão-mór de Freixo de Numão, Francisco António de Azevedo e Sousa, tinha aqui a sua casa principal — um solar que ainda hoje ostenta a armeiros da família no portão de ferro forjado. Em 1527, o Numeramento de D. João III contabilizou apenas treze fogos em Seixas. Hoje são 312 habitantes, com mais de um terço acima dos 65 anos. A Casa Grande, com a sua fachada de cal e cantaria, continua a ser o edifício mais imponente, lembrete de quando os Azevedo e Sousa controlavam 300 alqueires de terra de semeadura na paróquia.
O calendário das romarias
A 11 de Novembro, dia de São Martinho, acendem-se fogueiras na Rua da Igreja com castanhas vindas de Vilar de Perdizes. Antigamente, ofereciam-se duas telhas ao santo na crença de que protegeriam contra as sezões — as febres intermitentes que assolavam os vales húmidos. A romaria de São Bento, a 21 de Março, traz missas campais no adro, procissão ao som da Banda de Música de Freixo e, à noite, fogo de artifício que ilumina os socalcos. Desde 2012, o dia 9 de Novembro marca o Dia da Comunidade Seixense, data escolhida pela Junta de Freguesia para comemorar a outorga do foral medieval com arraial no campo de futebol e feira de produtos locais.
Amêndoa, azeite e o peso da certificação
A Amêndoa Douro DOP cresce nos socalcos acima dos 600 metros, colhida no final de Agosto quando as cascas começam a abrir ao sol. O Azeite de Trás-os-Montes DOP vem dos olivais centenários da Quinta do Correio, de azeitonas apanhadas à mão em Novembro. A Azeitona de Conserva Negrinha de Freixo DOP, pequena e carnuda, conserva-se em salmoura segundo o método que Dona Amélia transmitiu à neta. O Queijo Terrincho DOP, de ovelha da raça churra da Beira, tem a acidez certa para cortar a doçura do Mel da Terra Quente DOP produzido nas colmeias do vale do Tua. Nas adegas, o vinho do Alto Douro Vinhateiro — também ele Património Mundial desde 2001, tal como os Sítios de Arte Rupestre do Vale do Côa — envelhece em pipas de carvalho de 250 litros.
Peregrinos e caminhantes
O Caminho Interior da Via Lusitana, rota jacobeia que atravessa o nordeste transmontano, passa por Seixas desde 2018, quando a Associação de Municípios do Vale do Côa assinalou o traçado. Os peregrinos deixam pegadas no xisto solto, sobem até à Fonte dos Cântaros — construída em 1947 no lugar onde existia uma mina medieval — e seguem por Póvoa de Santa Cruz em direcção a Santiago. Não são muitos: contaram-se 327 no ano passado, mas os que passam param sempre no café O Adro para encher garrafas e petiscar toucinho-do-céu caseiro.
Ao fim da tarde, quando a luz rasante tinge de cobre os socalcos e o vento traz o cheiro a mosto das adegas, a varanda curva do Solar projecta a sua sombra exactamente sobre o brasão da família Aguilar gravado na pedra do chão. É um relógio de sol involuntário, medindo os dias pela geometria barroca e pela teimosia do xisto.