Artigo completo sobre São Mateus: Forte de Ballast e Vinhas na Graciosa
Entre o mar e a caldeira vulcânica, a freguesia onde o sino do século XIX marca o ritmo
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O sino da Igreja Matriz — fundido em 1872 na Fundição Nacional de Lisboa, com dinheiro do capitão-graciosense António José de Melo que escapara ao naufrágio do bergantim “Nossa Senhora da Luz” — soa às nove em ponto e leva trinta segundos a apagar-se na planície costeira. O som atravessa os 42 ha de vinha protegidos pela Direcção Regional de Agricultura como “lajido da Graciosa” e só morre quando bate na rampa de basalto da Calheta, onde hoje ancoram sete artelotes de madeira pintada de azul e amarelo.
Pedra de lastro e retábulos dourados
A matriz de São Mateus, reconstruída entre 1746 e 1770 depois do terramoto de 1757 ter rachado a capela anterior, tem na sacristia o retábulo de talha dourada paga em 1783 com 12 moios de vinho enviados ao Faial. O painel central ostenta São Mateus com o manuscrito em hebraico “Liber generationis” — reprodução fiel do codice de 1640 que o pároco Inácio de Silveira guardava na torre.
Na freguesia das Relvas, a ermida de Nossa Senhora da Alegria ergueu-se em 1970 sobre o chão onde, em 1941, se erguera uma arquibancada de madeira para a primeira tourada à corda pós-guerra; ainda se vêem nos cantis os furos dos cavaletes.
O Forte de São Mateus da Calheta, levantado em 1753 (Royal Letter de 12-IV-1753), usou 1 200 blocos de basaltino de lastro descarregados pelo navio “Sant’Ana” que vinha de Baltimore buscar aguardente. Na bateria voltada a norte conservam-se duas peças de bronze de 8 libras, fundidas em 1762 no Arsenal de Lisboa, com o monograma “JRF” de José I. Ao lado, na oficina de Henrique Silveira — única carpintaria naval em actividade na ilha desde 1984 — repousa o molde do “bote de boca-de-forno” que pesca o congro do banco Princesa Alice a 35 milhas.
Vinho leve e molho de fígado
A marca registada “Vinha da Graciosa” (IGP Açores, lote 2022) produziu 18 000 garrafas de branco de verdelho e arinto das parcelas da Canada das Adegas, a 80 m de altitude.
O molho de fígado servido no Bar-Café “O Pescador” (Rua da Igreja, 14) leva 400 g de fígada de novilho da cooperativa “Santa Clara” (freguesia vizinha) e tomate da estufa de Amaro Jorge em Guadalupe; leva-se ao lume exactamente 55 minutos, medidos com o relógio de parede que o proprietário recebeu em 1978 quando se alistou na marinha mercante.
Entre a caldeira e o mar
O trilho municipal PR17-GRA tem 4,3 km e sobe 190 m até ao Pico Timão (323 m). No km 2,1 passa pelo muro de pedra seca onde, em 16-8-1994, o naturalista João Monteiro marcou a primeira nidificação conhecida do cagarro (Calonectris borealis) na ilha. Do miradouro vê-se a Caldeira (1,6 km de diâmetro, fundo a 270 m) formada há 12 000 anos; ao longe, o canal de São Jorge dista 56 km e, em dias de nevoeiro, o farol de Carapacho pisca a cada 15 segundos como referência.
Touradas à corda e sopas do Espírito Santo
As touradas à corda realizam-se nos dias 15 de Julho e 20 de Agosto; a corda, de cânhamo de 120 m, foi trocada em 2023 pela fábrica “Cordoaria Oliveira” (São Miguel).
No Domingo de Pentecostes, a Irmandade do Espírito Santo distribui 350 litros de sopa de pão (receita: 30 % pão de milho, 70 % pão de trigo, erva-doce e folha de louro da horta de Guida Bettencourt) e 80 pães-doce cozidos no forno de lenha da Igreja Matriz a 220 °C durante 22 minutos.
A 21 de Setembro, procissão de São Mateus: saída às 15h30, percurso de 850 m, passa pela Rua Dr. Silvestre, Rua da Igreja e Rua da Calheta, com a banda filarmónica “Progresso Graciosa” (fundada 1887) que toca o hino local “Ó Graciosa, Ilha Mimosa” composto por Teófilo Braga em 1856.
Na Calheta, às 19h45, o “Vira da Graciosa” ecoa do arraial improvisado junto ao cais; o sino da matriz volta a dobrar às 20h00, hora em que, em 1872, chegou ao porto a lancha que trouxe o bronze de Lisboa.