Artigo completo sobre Estreito da Calheta: vinhas e capelas na encosta
Entre duas ribeiras e 740 metros de altitude, uma freguesia moldada por morgados e devoção
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O ar esfria de repente quando a estrada sobe pelos lombos, deixando para trás o azul do Atlântico. Aqui, a 740 metros de altitude, o Estreito da Calheta espraia-se em faixas compridas entre duas ribeiras — a São Bartolomeu a leste, a Funda a oeste — que mordem a encosta e a tornam mesmo estreita, como o nome não é mentira. As vinhas desenham linhas nos socalcos, os muros de pedra seguram a terra vermelha que escorre quando chove, e o vento que sobe do mar traz o cheiro a maresia misturado com fumo de lareira.
O morgado dos Franças e a estrela dos Magos
A freguesia já existia em 1518, quando a sua sede funcionava na Capela de Nossa Senhora da Graça, instituída por João de França — um dos primeiros a plantar raízes aqui, falecido quinze anos antes. O apelido França ficou ligado ao território através de um morgado que atravessou gerações, enquanto a cana-de-açúcar, a vinha e o trigo moldavam a paisagem e a economia local. Em 1529, Francisco Homem de Gouveia mandou construir a Capela dos Reis Magos, que ainda hoje guarda um retábulo flamengo do século XVI — madeira que cheira a cera e a incenso antigo, dourados que se apagam com os anos, figuras que parecem ter atravessado o Atlântico intactas mas com olhos tristes. Diogo Perestrelo Bisforte, sexto capitão do Porto Santo, casou com D. Maria da Câmara, herdeira do morgado dos Reis Magos, e passou temporadas neste recanto onde a devoção aos três reis se fixou em pedra e ouro.
A actual igreja paroquial, dedicada a Nossa Senhora da Graça, teve as obras concluídas em 1791, pagas pelos cofres do rei. O edifício ergue-se sóbrio no Lombo da Igreja, cal branca contra o verde dos fetos-bravos que já crescem entre as lajes do adro. Mais acima, no Lombo dos Castanheiros, a Capela de Nossa Senhora da Conceição data de 1670. Já no extremo oposto, a Capela de Nossa Senhora do Livramento foi erguida em 1858, completando um conjunto de quatro igrejas que marcam a topografia como pontos de referência — e onde ainda se ouvem missas quando o sino toca às sete da manhã.
Parreiras, estrelas e um edifício que se desfaz
O brasão do Estreito da Calheta exibe uma parreira e uma estrela cometa — alusão à Estrela dos Reis Magos, mas também testemunho de uma paisência onde a vinha sempre teve lugar. As vinhas sobem e descem os lombos, agarradas aos socalcos, parte da Região Vinho Madeira que dá nome à ilha. Não há pratos que se possam chamar "típicos do Estreito", mas quem cá vive sabe o sabor da espetada de bacalhau com cebolada, do caldo de couve com inhame, do bolo do caco com manteiga derretida — coisas simples que se fazem nos fogões de lenha.
No centro da freguesia, a chamada Venda Grande — edifício comercial e residencial do início do século XX — ergue-se como memória em vias de desaparecer. As paredes de pedra e cal começam a ceder, as janelas sem vidros deixam entrar a chuva, e o silêncio que paira à sua volta é o mesmo que envolve tantas outras casas onde já ninguém vive. É um vestígio de uma população que, desde 1930, encolheu de 4938 para apenas 1578 habitantes. Os 205 jovens dos Censos de 2021 contrastam com os 437 idosos, numa equação que se lê também na paisagem: fetos-bravos e urzes onde antes havia milho, caminhos de pedra que já ninguém limpa.
Entre o Paul da Serra e o mar
A freguesia estende-se verticalmente, da faixa costeira até cotas próximas dos 1200-1300 metros, nas imediações do Paul da Serra. Integra o Parque Natural da Madeira e está próxima da Floresta Laurissilva. Caminhar pelos trilhos que ligam os lombos é atravessar estratos de vegetação: vinha e hortícolas nos socalcos mais baixos, urzal onde a natureza recupera terreno, e mais acima, a transição para a floresta húmida onde o musgo cobre tudo. O som da água nas ribeiras acompanha o caminhante, constante mas discreto — como se a terra respirasse por baixo dos pés.
Do Lombo dos Reis, o olhar alcança a costa sudoeste, recortada e escura. A luz muda consoante a hora — dourada ao fim da tarde quando o sol se põe atrás do Paul, cinzenta quando o nevoeiro desce e envolve tudo numa humidade que entranha nos ossos. O padre César Teixeira da Fonte, natural daqui e falecido em 1989, conhecia bem este jogo de altitudes e climas, esta obrigação de subir e descer constantemente, como se a vida fosse medida em desnível.
Ao entardecer, quando as sombras dos socalcos se alongam e o vento abranda, resta o cheiro a terra molhada e o eco distante do sino da Graça. A estrela dos Magos, pintada no brasão, parece menos símbolo aqui: é quase possível vê-la suspensa sobre os lombos, guiando quem sobe pela encosta em direcção a algo que permanece, teimosamente, mesmo quando tudo à volta parece esvaziar-se.