Artigo completo sobre Curral das Freiras: vale cercado de montanhas e castanhas
Freguesia isolada em Câmara de Lobos com história de refúgio e tradições gastronómicas únicas
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O nevoeiro solta-se das encostas como fumo branco e desce devagar até ao fundo do vale, onde as casas de telha vermelha se apertam entre hortas de castanheiros. O ar chega frio e húmido, com cheiro a terra molhada e a lenha que arde nas lareiras. Ao fundo, a ribeira dos Socorridos murmura entre pedras cobertas de musgo. Aqui, no Curral das Freiras, o mundo exterior parece ter ficado do outro lado das montanhas — e ficou mesmo, durante séculos.
Refúgio de freiras e pastores
O nome não é lenda, é memória escrita no livro de tombo do convento. Em 1566, quando os corsários franceses de Bertrand de Montluc atacaram o Funchal a 4 de Outubro, as clarissas do Convento de Santa Clara fugiram para cá durante três dias a pé, guiadas por pastores da Janela. O que antes era apenas o "curral da Serra" - pasto comum documentado desde 1462 - tornou-se refúgio, depois povoado, finalmente paróquia por alvará régio de D. Maria I em 23 de Agosto de 1790. A Igreja de Nossa Senhora do Livramento, concluída em 1793 com campanário de mármore de Ançã, ergue-se no centro da aldeia com uma lápide no frontispício que recorda a dedicação à Rainha do Céu. Antes dela, existiu uma ermida de 1570 dedicada a Santo António, hoje apenas evocada no topónimo «sítio da Capela» onde ainda se vêem os alicerces de xisto. O isolamento manteve-se feroz: o primeiro telefone público chegou em 1933 (na casa de Manuel Nunes Marques), a estrada de rodagem só em 1959, e muitos curraleiros como Maria da Conceição "A Tia Cotinha" morreram sem nunca terem visto o mar, a quinze quilómetros em linha recta.
O vale que se come
A castanha governa o calendário e a mesa. Em novembro, a Festa da Castanha (desde 1984) transforma o vale num mercado medieval: cerca de 30 mil pessoas sobem para provar licor de 30ª com casca torrada, bolo de castanha com 12 horas de forno de lenha, broas de massa-mãe de trigo escuro, pão que esfuma ao toque. Nas cafetarias da Rua da Igreja, pequenos copos de licor de ginja e castanha aquecem as mãos frias. Mas há outro protagonista, mais discreto: o brigalhó (Dioscorea communis), tubérculo que se coze 24 horas na panela de barro negra de Camacha e evoca o "ano da fome" de 1852. A Mostra do Brigalhó, em maio (iniciada em 1999), recupera mingau com leite de cabra e "sopa dos sete verdes" que alimentaram gerações quando o trigo vinha do Caniço a burro. O mel de montanha, que as abelhas negras (Apis mellifera iberiensis) produziam nos cortiços de louro, tornou-se raro desde a introdução da varroa em 1988; o brasão da freguesia ainda a recorda, com duas abelhas azuis ladeando uma castanha dourada, aprovado em 1996.
Laurissilva e nevoeiro
A freguesia inteira repousa dentro do Parque Natural da Madeira (criado em 1982), rodeada pela Floresta Laurissilva classificada pela UNESCO em 1999. A Vereda do Urzal — dez quilómetros entre a Fajã dos Cardos (a 820m) e o centro (a 640m) — mergulha em túneis de tilia (Ocotea foetida), vinhático (Persea indica) e loureiro (Laurus novocanariensis) onde a humidade relativa nunca desce dos 85%. A Levada do Curral (construída 1960-1968) serpenteia entre fetos arbóreos (Dryopteris austriaca) e musgos que bebem o nevoeiro constante. Acima, os miradouros entregam vertigens: a Eira do Serrado, a 1 095 metros, debruça-se sobre o anfiteatro rochoso; a Boca dos Namorados (1 030m) convida a piqueniques com vista para o Pico Grande (1 657m); o Montado do Paredão oferece silêncio absoluto, cortado apenas pelo vento. À noite, nos cumes mais altos, é possível ouvir o canto da freira-da-madeira (Pterodroma madeira), redescoberta em 1969 no Pico do Areeiro, cuja vocalização lembrou aos pastores o lamento das freiras refugiadas.
Presépios e túneis
As Missas do Parto, entre 16 de dezembro e 6 de janeiro, abrem ao amanhecer — às 5h30, às 6h30 — e antecedem a inauguração do presépio do Centro Cívico (organizado pela Casa do Povo desde 1978), com 250 figurinos de barro de Margarida Amélia de Freitas, iluminado por 12 mil lâmpadas LED. O Natal reforça a identidade católica do vale, mas também marca o contraste com a modernidade: em 15 de Dezembro de 2004, o túnel rodoviário de 2 383 metros (Túnel do Curral) substituiu a ER228 sinuosa e perigosa que durante décadas foi a única ligação ao litoral. Dentro do túnel, a temperatura desce dos 18ºC para 12ºC, a luz artificial zumbe a 50Hz. Do outro lado, o vale abre-se outra vez, verde e fechado como uma mão.
O cheiro a castanha torrada persiste nas ruas estreitas mesmo fora de novembro. Nas casas tradicionais de xisto com colmo de trigo-negro da Murteira e do Colmeal, o fumo do fumeiro de chouriço de vinho sai pelas telhas. Aqui, o isolamento não é nostalgia — é textura quotidiana, espessa como o nevoeiro que nunca se dissipa de todo, mesmo quando o GPS marca 15 km até ao Funchal.