Artigo completo sobre Quinta Grande: Vinhas e Ribeiras nas Encostas da Madeira
Freguesia de Câmara de Lobos onde os terraços de vinha descem até ao mar a 648 metros de altitude
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O aroma do loureiro queimado sobe em espiral, misturado ao fumo da espetada que se assa sobre a brasa. Ao fundo, o mar desenha-se como uma mancha azul entre os terraços de vinha que descem em degraus verdes até à fajã de Câmara de Lobos. Aqui, a 648 metros de altitude, as vozes do arraial misturam-se com o murmúrio constante da Ribeira de Quinta Grande, que corre há séculos entre os basaltos escuros e as paredes de pedra solta.
A quinta que deu nome ao lugar
No século XVI, quando os colonos começaram a subir as encostas acima de Câmara de Lobos, uma propriedade agrícola de dimensões invulgares tornou-se referência para quem procurava as terras altas. A "Quinta Grande" possuía o maior lagar em pedra da ilha — uma estrutura de basaltão com capacidade para oito pipas de mosto, hoje escondida num quintal particular onde as videiras continuam a crescer entre muros de xisto. O nome ficou, a quinta fragmentou-se, mas a vocação agrícola mantém-se: os terraços cultivados sucedem-se em camadas que contam a história de gerações que moldaram a montanha à mão.
A Igreja Paroquial de Santo António ergue-se no centro da povoação, reconstruída em 1940 após um incêndio que consumiu o templo oitocentista. Os retábulos em madeira policromada brilham à luz das velas, e no dia 13 de junho as andas do santo percorrem as ruas estreitas seguidas por uma procissão que termina em arraial — bolo do caco com manteiga de alho, caldeirada de peixe escorpião, bailinho ao som de acordeão. Mais discreta, a Capela de Nossa Senhora da Conceição guarda no seu altar barroco setecentista a memória das romarias de dezembro, quando os fiéis caminham desde a matriz até ao pequeno templo de nave única, cantando entre os poços de nevoeiro.
Vinho, água e Laurissilva
A Ribeira de Quinta Grande nasce no Paul da Serra e atravessa a freguesia ao longo de oito quilómetros, alimentando os moinhos de água cujas estruturas de pedra ainda resistem junto ao leito. As levadas do Norte e do Poço da Neves cortam os socalcos, oferecendo caminhos planos entre o verde denso da Laurissilva — classificada pela UNESCO e protegida pelo Parque Natural da Madeira — e as parcelas de vinha da casta Tinta Negra. O trilho PR 17 segue a Levada do Norte até à Estrela de Câmara de Lobos, quatro quilómetros de verdura húmida onde o loureiro, o til e o vinhático formam túneis naturais sobre a água corrente.
No miradouro do Lombo de Santo António, o olhar alcança o arco costeiro inteiro: a fajã de Câmara de Lobos, o Cabo Girão ao longe, o Atlântico que muda de azul conforme a luz do poente. Aqui, o vento traz o cheiro a sal misturado com o perfume adocicado das vinhas maduras. Nas adegas familiares — pequenas caves escavadas na rocha — o vinho fermenta em tonéis de castanho, e a poncha de tangerina espera em garrafões de vidro grosso, aguardente de cana temperada com mel e sumo de fruta colhida na quinta.
O sabor dos socalcos
A espetada de vaca assa sobre ramos de loureiro, a gordura pingando na brasa e soltando aquele fumo denso que impregna a roupa. Ao lado, o milho frito estala na frigideira de ferro, e o bolo do caco aquece na chapa de basalto. A carne de vinha-d'alhos — marinada durante dias em vinho tinto, alho e colorau — frita-se no azeite da casa até ficar estaladiça. Nas mesas das festas, a caldeirada de cherne com inhame e batata-doce fumega em terrinas de barro, e o bolo de mel da Madeira — mel de cana, noz, laranja e especiarias — corta-se em fatias densas que grudam aos dedos.
O sino da igreja toca as seis da tarde. No Campo da Quinta — o primeiro campo de futebol de terra batida do concelho, construído nos anos 1930 — os miúdos jogam até a luz faltar. As bocas-de-lobo de pedra, legado de uma época em que cada propriedade era obrigada a manter uma, pontuam as ruas com a sua geometria discreta. E quando a noite cai sobre os terraços, o som da água na levada torna-se mais nítido, um murmúrio constante que acompanha o fumo das lareiras e o aroma a lenha de castanheiro que sobe das casas, desenhando no ar frio da montanha a presença invisível de todas as vindimas que aqui se fizeram.