Artigo completo sobre Sé do Funchal: Onde a História da Madeira Começou
Catedral mudéjar, fortaleza marítima e ruas medievais no coração da capital madeirense
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O badalar da Sé soa como o despertador do bairro: às oito já metade da baixa está acordada, mas há quem só se mexa quando o sino toca três vezes. Desce-se pela Rua de Santa Maria e o cheiro a bolo do caco apanha-nos de surpresa, como quando a vizinha abre a janela e está a fazer torradas. As portas pintadas são o truque mais barato de Funchal: bastou uma lata de tinta e de repente a rua parecia outra — funciona melhor que qualquer programa de reabilitação.
À esquina do Colégio há um café onde o dona Rosa serve um bica que custa sessenta cêntimos e faz concorrência aos italianos. Diz ela que o segredo é a ágida da cisterna antiga; eu acho que é porque o balcão ainda tem aqueles pratinhos de metal onde o açúcar fica pegado no fundo. É ali que se percebe que a Sé não é só catedral e brasões — é o sítio onde o pessoal vai buscar o pão quente antes das oito.
A catedral, essa, é como a avó que nunca falha: está ali desde 1514, com o teto de madeira que parece um puzzle gigante feito por gente com paciência de santo. Entra-se de graça e, se forei educado, deixam-te sentar um bocado nos bancos de madeira a cheirar a cera. A luz entra pelas janelas laterais e pinta o chão de losangos quentes — é o Instagram antes do Instagram.
O Palácio de São Lourenço é hoje quartel, mas as sentinelas deixam entrir quem quer ver o jardim. Do muro vê-se o mar como se fosse um postal virado ao contrário: primeiro o azul, depois o cais, depois as casas. Lá dentro há um museu militar que até os miúdos gostam, porque tem canhões verdadeiros e um mapa onde se pode apontar com o dedo e dizer "foi aqui que o pirata foi à vida".
Para comer, o Polar é como a tia que fazes questão de visitar: a espetada vem pendurada num galho de louro que ainda ferve na travessa. Não peçam molho — é insulto. O espada com banana parece inventado por quem juntou o que sobrou no frigorífico, mas resulta que nem gin tónico. E se ainda estiverem de pé, desçam à Praça do Carmo: há uma banca que faz poncha de tangerina que aquece mais que um cobertor elétrico.
No verão, o Jardim Municipal vira sala de estar: os velhos jogam sueca à sombra, os miúdos perseguem pombos e os turistas perguntam onde fica o WC. É grátis, tem bancos de azulejo e uma fonte que só falha quando há obras — ou seja, quase nunca. A Laurissilva fica longe, mas basta subir até ao Monte de teleférico e já se sente o cheiro a mato molhado que vem com o vento norte.
Quando a procissão da Festa da Sé desce a rua, os carros ficam presos lá em cima e todo mundo se queixa — até ao ano seguinte, quando lá estão outra vez, na mesma esquina, com o mesmo guardanapo na cabeça. É assim a Sé: queixa-se-se, mas ninguém quer que mude.