Artigo completo sobre Monte: Respirar a 850 Metros Acima do Funchal
Freguesia madeirense onde o nevoeiro dita o ritmo e a altitude transforma a atmosfera urbana
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A humidade adensa-se contra a pele antes mesmo de se perceber porquê. A 847 metros de altitude, no ponto mais alto da freguesia, o ar carrega uma frescura vegetal que não existe lá em baixo, no Funchal — um frio húmido que cheira a terra encharcada, a musgo vivo, a folha em decomposição lenta. O nevoeiro desce e sobe sem aviso, ora revelando ora engolindo os contornos das casas, das árvores, dos caminhos de calhau de basalto. Quem sobe até Monte não muda apenas de cota: muda de atmosfera, de ritmo respiratório, de densidade do silêncio.
Esta freguesia ocupa 1858 hectares na encosta norte do Funchal, e os seus 5794 habitantes (Censos 2021) distribuem-se por um território onde a verticalidade é regra e o plano é excepção. A densidade — 311 pessoas por km² — engana: há zonas de floresta densa onde não se cruza ninguém durante horas, e há largos como o da Igreja onde os mais velhos se juntam às 10h30, quando o sol consegue furar a cortina de nuvens. E os mais velhos são muitos: 27% da população tem 65 anos ou mais, enquanto as crianças até aos 14 não passam dos 603. Monte envelhece, mas envelhece com a obstinação silenciosa de quem conhece bem a montanha.
O peso da pedra classificada
Dois monumentos classificam-se de Interesse Público — dois apenas, mas suficientes para ancorar a identidade de um lugar que vive entre o sagrado e o secular. A Igreja de Nossa Senhora do Monte, reconstruída em 1741 sobre ermida do séc. XV, impõe-se com a sua fachada de pedra basáltica escura, talhada e reassentada ao longo dos séculos, que absorve a chuva frequente e ganha um brilho quase metálico nas manhãs de inverno. Caminhas entre muros que parecem ter crescido do próprio solo, tão entranhados estão na paisagem — muitos datam dos séculos XVIII/XIX, quando os agricultores os ergueram à mão para delimitar as poios (terraceios) onde cultivavam vinha, batata e trigo.
A elevação média coloca Monte na faixa climática onde a vegetação muda de carácter. Aqui, a proximidade ao Parque Natural da Madeira faz-se sentir de forma tangível: os sons da cidade chegam amortecidos, substituídos pelo gotejo constante da água que escorre entre fetos arborescentes e raízes expostas. A floresta não é cenário — é protagonista.
Laurissilva: a floresta que sobreviveu a um continente
A Floresta Laurissilva da Madeira, classificada como Património Mundial pela UNESCO em 1999, toca os limites norte de Monte e define o seu horizonte verde. Trata-se de um ecossistema relíquia, uma floresta de loureiros que cobria o sul da Europa há 40 milhões de anos e que aqui, protegida pelo isolamento atlântico e pela altitude, persistiu. Entrar nela é entrar numa catedral sem tecto: os troncos retorcidos dos til (Ocotea foetens) e barbusano (Apollonias barbujana) filtram uma luz esverdeada, difusa, que mal toca o chão coberto de folhada espessa de 10 cm de espessura. O som dominante é o da água — não um rio visível, mas uma omnipresença líquida que pinga, escorre, murmura por entre pedras cobertas de líquenes. O ar sabe a verde, se é que o verde tem sabor — uma frescura clorofilada que enche os pulmões e deixa nos lábios um travo quase mineral.
O acesso faz-se pelo Caminho do Pináculo, que parte do Largo das Babosas (590 m) e sobe até aos 1021 m do Pico do Areeiro em 3h30 de caminhada. O trilho 1.2 dentro do Parque Natural exige atenção ao terreno irregular, à lama que nunca seca por completo, às raízes que funcionam como degraus naturais. A dificuldade é real: os declives atingem 30% em alguns troços, os acessos nem sempre óbvios, e a meteorologia muda em minutos — pode estar sol no Largo das Babosas e nevoeiro fechado nos 800 metros.
O vinho que nasce na verticalidade
Monte integra a Região Demarcada do Madeira, mas a vinha desapareceu progressivamente desde os anos 1950. Ainda se encontram alguns currais (pequenos muros de pedra que formam terracos) entre os 300 e 500 metros, vestígios da viticultura que aqui floresceu até à filoxera e à subsequentes dificuldades de trabalho em declives superiores a 40%. O vinho Madeira que bebemos hoje nasce sobretudo nas encostas mais suaves de Câmara de Lobos e Estreito, mas carrega no copo a mesma complexidade que a ilha carrega na sua orografia: camadas sobrepostas, acidez viva, um final que demora a desaparecer. Como dizia o inglês Thomas Walker em 1825, "o vinho de Madeira é a geografia líquida da ilha".
A vida a 847 metros
O quotidiano em Monte tem a cadência de quem vive em altitude: manhãs frias que pedem café quente e janelas fechadas (a mínima média de Janeiro é 9,3ºC), tardes que se abrem quando o sol aquece a pedra dos muros, noites em que o nevoeiro desce como uma cortina de algodão húmido sobre as ruas estreitas. A multidão não é problema — recebe-se em média 1200 visitantes por dia, concentrados no teleférico e no Monte Palace Tropical Garden. Há uma qualidade de vazio que permite ouvir os próprios passos no calçamento, o ranger do portão do antigo hotel Monte Carlo (abandonado desde 1984), o canto intermitente de um melro-preto escondido entre as hortênsias.
Os 1858 hectares escondem recantos onde a vegetação domesticada dos jardins se funde com a selvajaria da laurissilva, sem que se perceba onde acaba uma e começa a outra. É nessa fronteira difusa — por exemplo no Caminho das Babosas, entre os 600 e 700 metros — que Monte revela o seu carácter: nem totalmente urbano, nem totalmente florestal, mas algo entre os dois — uma zona de transição onde a ilha mostra as costuras.
O que fica
Há uma imagem que se cola à memória depois de Monte: a de um muro de basalto negro, construído em 1873 para sustentar o quintal do Sr. António, coberto de musgo luminoso, com uma gota de água suspensa na ponta de um feto-do-monte (Dryopteris austriaca) — imóvel durante um segundo, antes de cair sem ruído sobre a terra escura. Não é grandioso. Não precisa de ser. É apenas a ilha a respirar, 847 metros acima do mar.