Artigo completo sobre São Gonçalo: laurissilva, nevoeiro e memória na encosta
Freguesia do Funchal entre floresta primitiva e Atlântico, com história desde 1558
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O ar cheira a pão da padaria do Lopes e a terra molhada — não há outro sítio no Funchal onde o nevoeiro traga este cheiro a bolo do caco ainda quente misturado com o da folha podre. São Gonçalo começa mesmo ali, onde a estrada faz a primeira curva apertada depois do túnel. Quem vem de baixo pensa que ainda está na cidade; quem desce de cima já traz a floresta nos sapatos. É aquela hora que o pessoal da Smartlês chama "entre os dois cafés" — depois do primeiro bica mas antes de abrir a porta do escritório — que o nevoeiro se agarra à roupa como um gato abandonado. Dura o tempo de fumar um cigarro. Depois desce a canada e o sol pica onde não devia.
O curato que nasceu de uma capela perdida
Dizem que a freguesia nasceu em 1558, mas o papel foi com os ratos. Sobrou é o alvará de 1566 que ninguém lê, guardado num arquivo onde as pessoas vão pedir certidões de óbito. A capela de Nossa Senhora das Neves ficava mais ou menos onde hoje está o cemitério — às vezes até se encontram pedras com cruz, mas pode ser só coincidência. Entre o Lazareto e o Caniço, São Gonçalo é aquela zona onde o GPS se baralha e mandam-no por um atalho que só o carteiro conhece. São 5806 almas, dizem as estatísticas, mas na prática são 5806 histórias de gente que se conhece toda desde que o pai do Zé vendia sardinhas na Praça do Povo.
A igreja que o Estado Novo plantou na encosta
A actual igreja começou a ser feita em 47, quando o padre Porfírio ainda tinha cabelo. Acabaram-na ao tempo do outro, o Juvenal, e hoje é aquela coisa branca que se vê de todo o lado — menos quando está nevoeiro, aí parece que foi abduzida. Por dentro tem uma Nossa Senhora que o Francisco Franco fez antes de ser famoso. Está ali desde 21, quando o Henrique Vieira de Castro a ofereceu — deve ter sido o último就放 que se fez na freguesia sem pedir orçamento à câmara.
Caminhos sob o dossel da floresta primitiva
Quem quiser despachar o jantar faz a levada do Rey — são 45 minutos a subir, depois é só deixar-se ir abaixo e em 20 está em casa. A laurissilva é tipo aquela tia que nunca emagrece: ocupa todo o espaço e ainda leva as migalhas do prato. Mas é bonita, lá isso é. No outono, quando as folhas dos til se poem amarelas, até parece que alguém foi à China comprar cenário. O trilho do Lombo das Faias é que é bom para limpar os pulmões — e para justificar o naco de bolo de mel que se come depois no Tasco do Chico.
O Lazareto e a vista que desmente a altitude
O Lazareto é agora só uma placa e uma vista. Antes havia quem fizesse quarentena ali, agora é só o pessoal do fitness a fazer selfie com o mar ao fundo. Ainda se vêem os muros, mas está tudo cheio de pilosella — aquela erva que o pessoal da Madeira chama "sete-espécies" e que cura tudo menos a ressaca. Desde aí até ao mar são 340 metros de queda, o que dá para perceber porque é que o velho do costume diz que "em São Gonçalo até os ratos têm vista mar".
Quando descemos à noite, leva-se nos ouvidos o cântico das rãs e no bolso o pão-de-ló que a dona Albertina nos meteu à pressa. A igreja fica lá em cima, a Nossa Senhora do Franco a olhar para quem vai perdido nos semáforos do Funchal. São Gonçalo não é para visitar — é para voltar. Como o vizinho do café diz: "Aqui não se vem de férias, aqui vem-se quando se está cansado de ser turista."