Artigo completo sobre São Roque: A Freguesia do Funchal Que Vive a 800 Metros
Entre nevoeiro e Laurissilva, esta zona alta do Funchal respira história desde o século XVI
Ocultar artigo Ler artigo completo
O nevoeiro desce pela encosta como um lençol húmido que se desenrola devagar. A 808 metros de altitude, o ar entra nos pulmões com um frescor vegetal — denso de musgo, de terra escura, de folha molhada. Lá em baixo, o Funchal espalha-se até à orla atlântica como uma maqueta de telhados cor de tijolo e paredes caiadas, mas aqui em cima o som dominante não é o trânsito: é o vento a atravessar os louros da Laurissilva, um sopro contínuo que faz as copas oscilarem com a cadência de uma respiração lenta. São Roque não é o Funchal dos cruzeiros e das esplanadas junto ao porto. É o Funchal que sobe, que trepa pela montanha, que se agarra ao basalto com raízes de quatro séculos e meio.
O santo que veio contra a peste
Em 1577, quando a freguesia foi oficialmente criada, a escolha do patrono não foi acidental. São Roque, o franciscano que a tradição consagrou como protector contra a peste e outras doenças, emprestou o seu nome a uma comunidade que crescia entre o litoral e as cumeadas. A Igreja de São Roque, construída no século XVI, tornou-se o eixo em torno do qual tudo se organizou — casas, caminhos, hortas. Quem hoje empurra a porta pesada de madeira e entra no interior semiobscuro encontra retábulos em madeira escurecida pelo tempo e imagens religiosas dos séculos XVII e XVIII, figuras de rostos serenos iluminadas pela luz filtrada que entra pelas janelas estreitas. O chão range sob os passos. O cheiro é o de qualquer igreja antiga da Madeira: cera derretida, madeira velha, uma humidade mineral que parece emanar das próprias paredes. A arquitectura é a tradicional madeirense — sem ostentação, sem dourados excessivos, com uma sobriedade que fala mais de fé quotidiana do que de poder eclesiástico.
A vertigem do Caminho do Calhau
O Caminho do Calhau, recentemente requalificado, é talvez a melhor forma de compreender a geografia radical desta freguesia. Começa mesmo ali, ao lado do cemitério, onde os carros estacionam meio em cima do passeio. O percurso desce pela encosta com vistas panorâmicas sobre o Funchal e o Atlântico, mas quem o faz regularmente sabe que o chão é irregular — há pedras soltas, degraus gastos pelo tempo, sítios onde a chuva abriu sulcos. A cada curva, a perspectiva muda: primeiro vê-se a mancha verde-escura da Laurissilva — Património Mundial da UNESCO desde 1999, uma floresta relíquia do Terciário que cobre parte do Parque Natural da Madeira —, depois abre-se o anfiteatro urbano do Funchal, e por fim surge o azul metálico do oceano, cortado ocasionalmente pela linha branca de um navio ao largo. Para quem caminha de manhã cedo, o orvalho ainda brilha nas folhas dos fetos, e o silêncio só é interrompido pelo canto das aves que habitam a Laurissilva. O pombo-trocaz, endémico da Madeira, move-se entre as copas com um bater de asas pesado e reconhecível — parece sempre prestes a cair, mas nunca cai.
Espetada, bolo do caco e o copo que aquece
A altitude cobra o seu preço térmico, sobretudo ao fim da tarde, quando a temperatura desce e a humidade se instala nos ossos. É nessa hora que a gastronomia madeirense faz mais sentido. Na Padaria do Franklim, ainda há quem compre pão quente às 18h30 — chega-se lá e o balcão está cheio de folhas de couve enroladas, prontas para enrolar a carne. A espetada de carne de vaca — tiras de carne atravessadas num espeto de louro, grelhadas sobre brasas — chega à mesa a fumegar, com o aroma resinoso da madeira a impregnar cada fibra. Ao lado, o bolo do caco, achatado e quente, com manteiga de alho a derreter na superfície porosa. A carne de vinha d'alhos, marinada em vinho e especiarias, traz consigo séculos de tradição conserveira insular — mas também traz o sabor da casa da Dona Graça, que a faz com o molho a ficar dois dias no frigorífico antes de ir para o tacho. E depois há o vinho Madeira, que aqui não é apenas aperitivo de turista: é hábito, é cultura, é a região vinícola a manifestar-se em cada copo âmbar. A poncha — aguardente de cana, mel e limão — surge como alternativa mais rústica, servida no Bar da Poncha em copos de plástico que já foram brancos mas agora estão opacos do uso. O bolo de mel e as queijadas completam a mesa com a doçura densa que caracteriza a pastelaria da ilha — mas ninguém se engane: o bolo de mel da Dona Emília é diferente, mais escuro, com mais noz-moscada, aquele que os vizinhos pedem emprestado para festas de aniversário.
Oitocentos metros entre o urbano e o selvagem
São Roque ocupa uma posição singular: com 749 hectares e uma densidade de 1113 habitantes por quilómetro quadrado, é simultaneamente zona residencial consolidada e porta de entrada para o território protegido do Parque Natural da Madeira. Os seus 8349 residentes — entre os quais 924 jovens e 1702 idosos, segundo os Censos de 2021 — vivem nesta tensão produtiva entre cidade e montanha. Nas Fontes, os prédios novos cresceram rápido demais e há quem diga que a água por vezes falta. Nas Casas Próximas, as casas de pedra escura ainda têm os tanques onde as mulheres lavavam roupa — agora servem de vasos para plantas. O Jardim Botânico da Madeira, nas proximidades, funciona como uma espécie de enciclopédia viva desta biodiversidade, mas a verdadeira experiência está nos trilhos que penetram a Laurissilva — onde os troncos retorcidos dos loureiros se cobrem de líquenes e o ar se torna tão saturado de humidade que quase se pode beber. Ali, no Curral dos Romeiros, há um muro de pedra que marca o limite entre o que é freguesia e o que é mato — do outro lado, só mesmo quem conhece os caminhos dos antigos vai buscar folhas de hortelã para o chá.
Agosto, quando a encosta acende
Em Agosto, a festa em honra de São Roque transforma a freguesia. Começa com a alvorada — os foguetes às 6h da manhã que até os cães já não ligam. As missas e procissões organizam o tempo litúrgico, mas é o arraial que define o ritmo nocturno — música ao vivo, cheiro a carne grelhada, luzes de papel a balançar entre postes. Na Rua da Igreja, as portas das casas ficam abertas e há sempre alguém a oferecer um copo de vinho. A fila para as espetadas do António começa logo às 19h — ele grelha no mesmo sítio há trinta anos, usa sempre o mesmo avental azul com o logótipo da cerveja. Os miúdos andam de balão na mão, os velhos sentam-se nas cadeiras de plástico que o junta arranja emprestadas. É o momento em que a comunidade se torna visível como tal, em que os 446 anos de existência administrativa — celebrados em 2023 — ganham corpo e voz. O campo polidesportivo, renovado com um investimento de quase 300 mil euros, é onde o pessoal vai jogar à bola ao domingo — mas também onde as crianças aprenderam a andar de bicicleta, onde os adolescentes vão fumar o primeiro cigarro. As obras de requalificação urbana como o alargamento do Caminho do Oliva mostram uma freguesia que investe no presente sem negar a sua escala humana — mas também mostram que há quem receie que São Roque perca aquilo que a torna São Roque.
Quando o arraial acaba e as últimas luzes se apagam, resta o som do vento na Laurissilva, lá em cima, onde os louros continuam a sua oscilação milenar. E o cheiro a louro queimado da última espetada da noite — esse, fica nas roupas, nos dedos, na memória de quem subiu até aqui e percebeu que o Funchal não termina no porto.