Artigo completo sobre Porto da Cruz: Aguardente, Penha de Águia e Atlântico
Engenho do Norte, socalcos de vinha e levadas na encosta vigiada por 580 metros de basalto vertical
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O vapor sobe do tacho de cobre no Engenho do Norte enquanto o bagaço de cana fermenta no ar. É um cheiro que se agarra à roupa, adocicado e queimado, que se mistura com a maresia trazida pelo vento norte. Porto da Cruz acorda assim, entre o Atlântico e o anfiteatro verde das montanhas, com o Penha de Águia — quinhentos e oitenta metros de basalto vertical — a vigiar a freguesia desde que me lembro.
A memória da cana e da cruz
O nome vem da cruz de madeira que os velhos ainda apontam quando lhes perguntamos onde é que os barcos vinham atracar. A Capela de Santa Cruz encolheu com os anos, mas ainda lá está, encostada ao mar. Já a Igreja Paroquial da Santíssima Trindade, mandada construir pelos ingleses que vinham cá buscar vinho no século XIX, domina o largo onde os homens se juntam à sombra. Nos alambiques, a história continua a ser feita à mão: o João, que tem o ofício do pai, vai buscar a cana aos campos de Santana e destila durante três dias seguidos. O primeiro bagaço que sai é para os amigos, o resto guarda-se para a poncha que a D. Rosa faz no bar da esquina.
Socalcos que descem até ao mar
Os vinhedos são de quem se atreve a plantar aqui. O Zé do Carmo tem uma parcela que o aviso lhe deixou — umas quantas linhas de vinha entre as bananeiras, onde as uvas aguentam o sal e o vento. Diz que é o Penha de Águia que as protege, mas eu acho que é teimosia pura. Entre as pedras soltas dos muros, crescem figueiras--da-india e os maracujás que as crianças roubam no regresso à escola. A praia de seixo negro está sempre ali, mudando de forma conforme o mar leva e traz as pedras.
Caminhos de água e de pedra
A Levada do Castelejo começa mesmo ali por trás do engenho. Os primeiros metros são de calçada, onde as galinhas da vizinha vêm picar milho. Depois entra-se na sombra da laurissilva, onde o musgo cobre tudo e a água corre tão silenciosa que só se ouve quando paramos. A subida ao Penha de Águia é para quem tem pernas e coragem — três horas de subida directa, sem sombra nem água. Lá em cima, o vento é outro. Vê-se o Caniçal ao fundo, o Porto Santo quando o céu está limpo, e Porto da Cruz fica pequeno, tão pequeno que cabe na mão.
Sabor a mar e a vinha d'alhos
O César abre o forno às seis da manhã. O bolo do caco nasce ali, na massa que ele deixa levantar enquanto vai buscar o pão de trigo à padaria. A espetada é feita com o que se tem: vaca velha da serra, marinada durante dois dias no vinho da casa, com alho de terra e colorau da horta. O peixe depende do que o Zeca traz — quando há, é serra ou garoupa, quando não há, é espadarte congelado. A poncha é da D. Rosa: três dedos de aguardente, um de mel, sumo de limão até ficar loura, batida com a vara de medronho até fazer espuma.
Setembro e a exaltação da cruz
Em Setembro, o coreto da praia enche-se de cadeiras e as ruas enfeitam-se com papel de seda. A procissão da Exaltação da Santa Cruz é o que resta dos tempos em que toda a gente vinha de barco. Agora vêm de carro, de autocarro, alguns de avião. A imagem é a mesma de sempre, pesada de tanto ouro falso, mas os cânticos são os que a avó me ensinou. Nas Trindades, em Maio, as portas abrem-se para as visitas e as mesas de jantar estendem-se até à rua. Os emigrantes que voltam falam estrangeiro, mas comem estes dias como se nunca tivessem saido.
A praia de seixo negro continua lá. Às vezes aparecem surfistas, outras vezes está só o mar e as pedras. O som é sempre o mesmo — aquelas pedras que se roçam umas nas outras quando a maré as leva. Ao fundo, o Penha de Águia continua a cortar o céu, e o vapor do engenho sobe ainda, mais lento agora, misturando-se com o nevoeiro que desce da montanha quando o dia vai acabando.