Artigo completo sobre Tabua: Entre Levadas e Socalcos na Encosta da Madeira
A freguesia mais pequena da Ribeira Brava onde a água corre constante desde o Pico das Pedras
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O som da água corre constante no vale. Não é o mar — esse fica mais abaixo, onde a Ribeira de Tabua desagua depois de percorrer sete quilómetros desde o Pico das Pedras, lá aos 1510 metros de altitude. Aqui, a 521 metros acima do nível do mar, o ar chega húmido e fresco, carregado pelo verde da Floresta Laurissilva que envolve a freguesia. Entre os socalcos onde crescem videiras, cana-de-açúcar e bananeiras, os 1158 habitantes da mais pequena freguesia do concelho da Ribeira Brava distribuem-se por pouco mais de onze quilómetros quadrados de encosta íngreme.
A planta que deu nome ao lugar
Atabua. O nome antigo ainda ressoa na boca de alguns locais, lembrança de uma planta que cobria estas margens — a mesma que durante séculos forneceu fibra para esteiras e fundos de cadeiras. Foi o Padre António Francisco Drumond e Vasconcelos quem, em 1838, simplificou o topónimo para Tabua, mas a memória da planta permanece enraizada na identidade do lugar. A freguesia nasceu por volta de 1588, quando a capela da Santíssima Trindade deu origem à paróquia, mais tarde substituída pela de Nossa Senhora da Conceição. A história administrativa é feita de idas e vindas: em 1881, Tabua foi anexada à Ponta do Sol; em 1914, regressou ao concelho da Ribeira Brava.
Pedra e fé na encosta
A igreja paroquial actual levanta-se desde os finais do século XVII, erguida depois de um aluvião ter destruído a antiga capela de Nossa Senhora da Conceição. A cal das paredes contrasta com o xisto escuro das levadas e o granito dos muros que seguram os socalcos. Nas capelas dispersas pela freguesia — Nossa Senhora da Candelária, hoje em ruínas, Nossa Senhora da Conceição e a Capela da Mãe de Deus — acumulam-se séculos de devoção. Há património classificado como Monumento Nacional e Imóvel de Interesse Público, testemunhos silenciosos de uma fé que moldou o quotidiano destas encostas.
O calendário das tradições
Na noite de Natal, as romagens sobem e descem as veredas da freguesia. Em Janeiro, o Cantar dos Reis ecoa pelas casas; mais tarde, chega a visita do Espírito Santo. A 2 de Fevereiro, a Festa de Nossa Senhora das Candeias atrai devotos à capela da Candelária, enquanto a Santíssima Trindade tem a sua própria celebração. Mas há um detalhe que singulariza Tabua: nas Missas do Parto, um grupo de idosos toca castanholas, ritmo seco e antigo que pontua os cânticos e mantém viva uma prática que noutros lugares já se perdeu.
Entre a laurissilva e os socalcos
Tabua respira dentro do Parque Natural da Madeira, envolvida pela Floresta Laurissilva que a UNESCO reconheceu como Património Mundial. O verde é denso, húmido, atravessado pelo murmúrio constante da ribeira. Nos socalcos cultivados, a vinha da Região Vinícola da Madeira divide espaço com a cana-de-açúcar e as bananeiras, geometria agrícola desenhada pela necessidade de domar a inclinação. A densidade populacional — pouco mais de 104 habitantes por quilómetro quadrado — deixa espaço ao silêncio, apenas interrompido pelo vento que sobe do vale ou pelo sino da igreja a marcar as horas.
Memória viva
Em 2025, Tabua participou na recriação histórica da cabotagem em Ribeira Brava, representando cenas do século XX. Foi uma forma de trazer à superfície memórias de um tempo em que o mar e a terra se ligavam por caminhos mais lentos, quando o transporte de mercadorias seguia o ritmo das marés e da força dos braços. Aqui, onde 156 jovens convivem com 263 idosos, o passado não é uma abstracção — está presente na forma como se trabalha a terra, nas festas que resistem ao calendário moderno, no som seco das castanholas que ainda marca as missas.
A ribeira continua a correr, indiferente às mudanças administrativas e aos séculos que passaram desde que alguém baptizou este vale com o nome de uma planta. Quem caminha pelas veredas de Tabua ouve esse som constante, água fria que desce da montanha e lembra que há geografias onde o essencial permanece: a inclinação da terra, o verde da floresta, o ritmo das estações agrícolas e o toque seco das castanholas numa missa de Dezembro.