Artigo completo sobre Cedros: onde o cedro-do-mato encontra o Atlântico
Freguesia mais pequena das Flores com 112 habitantes, entre penhascos, laranjais e memórias inglesas
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A Ribeira da Alagoa despeja-se no Atlântico num anfiteatro de penhascos onde o vento sudoeste bate directo, sem aviso. É aqui, nesta fenda verde aberta na costa leste da Ilha das Flores, que Cedros se estende — 112 almas distribuídas entre o casario disperso da freguesia e o lugar da Ponta Ruiva, onde o Ilhéu Furado emerge da espuma como uma agulha de basalto perfurada pelo mar. O ar cheira a sal e a terra molhada. Nas encostas, os muros de pedra seca delimitam pastagens onde as vacas pastam indiferentes à vertigem do precipício.
O cedro que deu nome ao silêncio
O topónimo vem do cedro-do-mato, o Juniperus brevifolia que os primeiros colonos encontraram em abundância e usaram para erguer casas e barcos. Em 1693, a freguesia contava já 50 fogos e 176 pessoas — números que hoje soam impossíveis nesta que é a menor freguesia da ilha. A Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Pilar, consagrada em 1954 após a demolição do templo anterior de 1712, ergue-se branca e sóbria no centro da aldeia. É a quinta paróquia mais antiga das Flores, fundada em 1693, e a sua torre marca o eixo vertical num território onde tudo o resto se espalha horizontalmente, agarrado à terra.
Quando a laranja viajava para Inglaterra
Durante décadas, a Baía da Alagoa foi o único ancoradouro seguro da ilha quando o vento soprava de sudoeste. Daqui partiam, entre 1890 e 1960, caixotes de laranja "Valência" cultivada no vale, rumando directamente aos mercados de Falmouth e Southampton — um circuito comercial que tornava Cedros um ponto extra-periférico, ligado a Londres antes de estar bem ligado a Santa Cruz. O ancoradouro permanece, mas os barcos já não vêm. Apenas os caminhantes da Grande Rota das Flores (GR1-FLO) descem até à baía, uma das raras praias da ilha, onde a água fria do Atlântico bate nas pedras roladas e o silêncio é absoluto.
Procissão, tríduo e o regresso dos que partiram
A 15 de agosto, as Festas de Nossa Senhora do Pilar e São Roque quebram a quietude. O tríduo preparatório começa a 12, com eucaristias às 20h00 na igreja matriz. No domingo seguinte, a procissão tradicional percorre as ruas principais às 16h00, com o andor de Nossa Senhora do Pilar carregado por oito homens da Irmandade do Santíssimo. O arraial estende-se pela noite no adro da igreja, com o grupo folclórico "Os Cedrenses" a animar o bailarico. Por três dias, Cedros duplica a população — os emigrantes de Boston, Toronto e Lisboa ocupam as poucas casas de família que ainda resistem ao abandono.
Entre o ilhéu e a hidroelétrica
O percurso entre Cedros e Ponta Delgada desenrola-se por 7,3 km de estradas municipais onde os muros de pedra explodem em hortênsias azuis e roxas. Do Miradouro do Ilhéu Furado, a 150 metros de altitude, a formação rochosa perfurada alinha-se com o horizonte — um arco natural de 20 metros esculpido pela erosão, visível a cada curva do trilho. Mais para o interior, a estrada sobe até à barragem da hidroeléctrica de Cedros, inaugurada em 1966 com 19 metros de altura, cruzando pastagens onde o verde é tão denso que dói nos olhos. O gado move-se devagar. O vento traz o som distante da rebentação.
Ao fim da tarde, quando o sol rasante incendeia o basalto do Ilhéu Furado às 18h30, percebe-se que Cedros não é um destino — é um intervalo entre a montanha e o mar, onde a escala humana se mede pelo som dos passos na calçada irregular e pelo eco longínquo de uma porta a bater ao vento.