Artigo completo sobre Ponta Delgada: onde a Ilha das Flores termina no mar
Freguesia açoriana de 280 almas entre falésias de basalto e o Atlântico sem fim
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O vento do Atlântico não pede licença: abre a porta de soco e entra pela Rua da Igreja acima com o sal nos dentes. Primeiro cheira-se, depois sente-se: a humidade cola-se ao pescoço como um cachecol molhado. Ponta Delgada fica na ponta, claro, mas é mais do que isso — é um lugar onde a terra acaba de repente, sem despedida, e o mar começa logo ali, em frente à janela da casa do Henrique, o último pescador que ainda arma a rede ao cair da noite.
A pedra e a fé
A Igreja de São Pedro tem a parede sul gasta pelo sal: a pedra escura está lisa, como quem foi lustrada por mãos invisíveis durante cento e cinquenta anos. Dentro, o cheiro é de cera derretida e madeira de cedro que se mistura com o pão-de-ló que as mulheres trazem aos domingos para abençoar. Subindo a ladeira, a capela de Nossa Senhora da Guia aparece de repente, branca contra o céu, e é lá que a D. Albertina vai acender um velho deitado às quartas-feiras "para o mar não se levar o menino", como diz. Dali vê-se a Fajã dos Ventura, onde o João planta inhame em terra que ninguém quer porque é demasiado inclinada — mas ele diz que é a única que ainda dá doce.
Vida à beira do abismo
As casas não "alinharam-se": foram-se encostando umas às outras como quem se agarra ao vento. As hortênsias não "explodem": são o que resta das sebes que a mãe da Glória plantou quando casou, há cinquenta anos, e agora a filha rega-as com água de poio porque o pai já não pode curvar-se. A população não "tem vindo a diminuir": foi-se embora gente com nomes inteiros — os Silveira, os Ávila, os Remédios — e deixou janelas pintadas de azul para fingir que ainda há quem as abra de manhã. Quem fica faz inhame com lingueira, queijo com leite da vaca da Tia Lurdes (que é prima, não tia), e vai às "festas" que são na verdade uma missa, um cântico, e depois o bailarico no adro onde se bebe vinho de cheiro que o padre já não repreende porque sabe que é o que há.
Sabores de terra e mar
O caldo de peixe leva tomilho-da-ribeira que se arranca com a unha, depois de se descalçar a bota para descer ao vale. O polvo vai para a panela de ferro que a avó da Laura trouxe de barco há sessenta anos — é a mesma onde se faz o ensopado, que leva três horas e meia e cheira à casa inteira. O inhame é servido em rodelas grossas, sem firulas: molha-se no molho e come-se com a mão à volta do prato comum. O bolo lêvedo não é "legado conventual": é o que a vizinha da frente deixa na porta, ainda quente, quando sabe que há visita. O doce de vila é engolido em duas colheradas, antes de o miúdo se fartar e ir ver se o mar trouxe algum tainho às rochas.
Caminhar sobre lava
O trilho não é "coberto de fetos arbóreos": é um tapete de folhas de tamujo que escorregam quando o orvalho ainda não secou. As piscinas naturais são buracos entre as rochas onde a água fica presa às vezes o dia inteiro — se o mar está bravo, nem o mais novo das Pimental se atreve a meter o pé. Não há placas a explicar a lava: basta por a mão na parede e sentir o vesículo que arrefeceu em 1957, quando o Capelinhos ainda nem tinha nascido. Ao cair da tarde, o sino toca duas vezes: uma para as horas, outra para avisar que o barco do Gil já se vê a entrar na baía. É esse som — ferro e gaivota, cheiro a gasóleo e a algas — que fica nos ouvidos de quem se senta no muro da igreja a ver o dia acabar.