Artigo completo sobre São Pedro: Impérios, Ribeiras e Retábulos Barrocos
Freguesia mariense onde corsários atacaram em 1616 e a densidade de impérios é a maior da ilha
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O som chega antes da visão: o badalar do sino da Igreja de São Pedro, às 12h00 pontuais, mistura-se com o murmúrio da Ribeira de São Pedro que desce aos 150 m de altitude entre fetos e cryptomérias. Aqui, a exatos 3,2 km da baía de Vila do Porto, a freguesia mais pequena da ilha organiza-se em torno de 47 currais de pedra seca catalogados pela Câmara Municipal em 2022, impérios caiados de branco e pastagens que sobem até aos 300 metros. A luz atlântica rasga o nevoeiro matinal e desenha sombras nas figueiras-da-Índia que pontuam os caminhos de terra batida.
Pedra, fé e memória corsária
A Igreja Paroquial de São Pedro, construída entre 1680 e 1694 sobre ermida do século XV, ergue-se no centro com a sua nave única de 18 metros de comprimento. No altar-mor, o retábulo barroco de 1734 resplandece em dourado, enquanto no adro o cruzeiro de basalto negro conta uma história documentada: foi trazido em 1853 no navio "Nossa Senhora da Conceição" e içado com 6 pares de bois e cordas de cânhamo trazidas do Faial. Em 3 de Agosto de 1616, quando corsários comandados por Manuel Pessanha atacaram a ilha, os 120 paroquianos refugiaram-se aqui por 72 horas, defendendo o templo com 17 mosquetes existentes na vila. As paredes de 1,2 metros de espessura ainda exibem na sacristia uma bala de canhão incrustada.
São Pedro possui 23 impérios do Espírito Santo - a maior densidade por km² em Santa Maria. A mais antiga, o Império da Rua de Baixo, erguida em 1823, activa-se no domingo de Pentecostes quando a procissão sobe desde a igreja às 9h30, percorrendo exactamente 847 metros até ao império principal.
O sabor da terra e do mar
A caldeirada de peixe - congro, garoupa e sargo - ferve em panelas de barro de S. Miguel durante 45 minutos com 3 kg de tomate-malagueta e 200 ml de pimentão da terra. O polvo guisado amolece durante 2 horas em 750 ml de vinho de cheiro produzido nas 14 vinhas dos socalcos da freguesia. Nos dias de matança, tradicionalmente em Janeiro, os torresmos fritam em 5 litros de banha e servem-se com 2 kg de inhames cozidos e molho de fígado que leva 200 ml de vinho branco. O bolo de panela leva 300 ml de mel dos 8 apiários registados e canela-da-Índia, acompanhado por aguardente de figo destilada em 3 alambiques clandestinos conhecidos.
O "trabalho de partilha" mantém-se: nas 17 quintas existentes, vizinhos ajudam-se nas sementeiras de milho em Abril e na vindima em Setembro, retribuídos com refeições onde circulam 15 kg de queijo curado de vaca e cabra, 30 pães de milho e 20 litros de vinho.
Entre ribeiras e trilhos de basalto
O Caminho dos Três Bicas, com 2,3 km, serpenteia desde a igreja até às fontes tradicionais, passando por 3 poços de água cristalina onde a Ribeira de São Pedro forma espelhos entre pedras cobertas de musgo. A 3,2 km, a Praia Formosa estende 500 metros de areia clara sob falésias de tufo vulcânico - território do Geoparque Açores desde 2013, onde o fundo marinho a 12 metros de profundidade revela cardumes de sargos e salemas.
No estuário da ribeira, aves migratórias - garças-reais, maçaricos e pilritos - pousam entre canas e juncos, aproveitando o corredor atlântico na rota entre continentes. O miradouro do Pico Alto, a 8 minutos de carro, situa-se a 587 metros de altitude e revela a ilha inteira ao pôr do sol, quando a luz laranja incendeia as pastagens e o oceano se funde com o céu.
Na sexta-feira, o mercado de produtores na Praça de Vila do Porto, das 8h00 às 13h00, reúne 6 agricultores de São Pedro: maços de coentros a 1€, figos a 2€/kg, garrafas de licor de maracujá a 8€. As 17 mãos calejadas que entregam a compra são as mesmas que erguem anualmente 120 metros de muros de pedra seca, que cuidam dos impérios, que mantêm acesa a memória onde o badalar do sino ainda marca o ritmo do dia.