Artigo completo sobre Santo Amaro: Vida a 500 Metros sobre o Atlântico
Freguesia açoriana onde pastagens verdejantes, vinhas vulcânicas e névoa constante moldam o quotidia
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A névoa desenrola-se pelos flancos da Serra de Santo Antão como um lençol húmido, deixando no ar o cheiro a terra vulcânica e à erva-da-queimada que os pastores ainda usam para curar gripes. Santo Amaro respira a 480 metros de altitude — não "quinhentos", os 20 metros fazem diferença quando se traz o gado da pastagem — onde o verde das parcelas deixadas pelas iguais se estende até o canal que separa São Jorge do Pico. O vento sopra constante do Noroeste, trazendo o sal e, em dias maus, o cheiro a enxofre da fumarola da Ferraria.
A freguesia conta 790 habitantes (Censos 2021), espalhados por 22,21 km² de bocage dividido em currais de pedra seca. Dá 35,6 hab./km², mas o número não diz tudo: metade da população concentra-se no Arrabalde e no Loural, onde a estrada municipal chega. Subir às Almas ou ao Terreiro da Igreja é encontrar casas com porta cerrada desde 1975.
Altitude e isolamento
A 480 m, o frio é de Inverno por maioria absoluta. Em Março ainda se acende a salamandra às 6 h, quando o criador do Loural sobe para ordenhar as 18 vacas que restam na exploração. As casas são de basalto local, extraído na pedreira do Norte, com telha de barro vermelha da fábrica da Lagoa — a mesma que abasteceu Velas até 1983. O asfalto da Estrada Regional 1-2 acaba no Terreiro; depois são 3 km de calçada maltratada até a Ermida de São Miguel, onde só se chega de jeep ou a pé. Quem vai, vai de propósito: buscar leite ao tanque colectivo, levar o pão à Dona Guida ou cortar a relva para o São João.
Terra de pastores e vinhas
Santo Amaro tinha, em 1950, 1 470 habitantes e 400 ha de vinha. Hoje restam 6 ha, agarrados ao lugar do Cerrado, plantados em cordões baixos protegidos por currais de 1,80 m. A casta é o Verdelho, trazido do Pico em 1892 pelo capitão Amâncio de Bettencourt — ainda há garrafas de 1969 no porão da casa da família. O leite é o rendimento certo: 180 mil litros/ano entregues à União de Cooperativas de Lacticínios de São Jorge, pagos a 0,42 €/litro em Janeiro de 2024. O rebanho é de 260 vacas, todas Holstein Friesian, mas já se contavam 800 em 1985.
A população tem 105 crianças até aos 14 anos e 164 idosos com mais de 65; a Escola Básica do 1.º ciclo tinha 37 alunos em 2022/23, sete dos quais transportados diariamente da freguesia vizinha de Norte Grande. As festas são duas: 15 de Agosto, Nossa Senhora da Saúde, com procissão de velas de cera desde a Igreja Matriz até o Cerrado, e 29 de Setembro, São Miguel, com tourada à corda na Rua do Loural — a única da ilha que ainda corre entre muros de pedra.
O que fica
Ao final da tarde, quando o sol se põe atrás do Pico e a serra projecta sombra sobre a fajã do Ouvidor, fica o sabor do queijo curado de 60 dias que a Dona Odete guarda sob a pia, o ranger da porta da capela de São Miguel ao fechar, e o eco do rádio da pick-up do Zé do Loural que sobe a estrada com os bidões de leite. Não há placas indicativas, nem lojas de recordações. Fica apenas o ar rarefeito que faz arder os pulmões na subida, o silêncio partido por uma vaca que mugido ecoa de vale a vale, e o atlântico que, mesmo sem se ver, deixa o sal nos lábios.