Artigo completo sobre Velas: onde o relógio inglês marca o tempo da ilha
Vila histórica de São Jorge entre o Pico e as fajãs atlânticas, com queijo, lapas e trilhos épicos
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O relógio inglês do edifício da Câmara adianta-se cinco minutos. Desde 1902 que o seu tique-taque se mistura ao murmúrio da ribeira que desce pela Rua do Cais e se perde na baía. Ao entardecer, o Pico parece deslocar-se: primeiro é uma ilha, depois uma montanha de cartão recortada, tão nítida que se lhe adivinham as vinhas na boca de lava. Velas nasceu desta proximidade — quem diz que o nome vem das velas dos navios não sentiu o vento norte a bater na foz da ribeira, onde as jangadas de pesca ainda se arrastam pela areia preta.
A vila que o sismo curvou
O de 57 deixou apenas a ermida dos Remédios de pé. Quando rebentou o mau tempo, as pedras rolaram pela encosta abaixo e enterraram o porto antigo. A reconstrução subiu: quem caminha hoje pela Rua da Igreja sente os joelhos a queixarem-se, mas recompensa-se no Largo onde a malga de vinho custa um euro e meio e o dono do café ainda pergunta «Vai para o Norte ou para o Sul?» como quem oferece bússola. A Alfândega, agora biblioteca, mantém a ferrugem na porta principal — é preciso empurrar com o ombro direito, como se dizia aos baleeiros de Nantucket que aí vinham atracar.
Fajãs que se agarram
Desce-se à Caldeira de Santo Cristo pela vereda onde a terra cheira a cavalo molhado. Depois das hortênsias, o trilho afina-se entre urzes e o silêncio só quebrado pelo sibilo dos cagarros. Na fajã, a lagoa é mais funda do que parece: os mergulhadores locais contam que no centro há uma boca de vulcão tapada com algas. Os mexilhões crescem em cordas de pneu velho, os donos marcam-nos com fita de sinalização amarela — é o GPS de quem confia mais na memória dos pés que nos mapas. A subida faz-se de barriga vazia: no final espera a banca de sapateira com limão e um copo de tinto da casa.
O queijo que amanhece
São Jorge tem 8000 vacas e 4000 habitantes. No mercado de quarta-feira, o queijo chega antes das sete em pratos de madeira cobertos com pano de quadrados vermelhos. A crosta é táctica: estala sob a faca e solta um aroma a cave de madeira onde o giz se funde com a manteiga rancosa. O curandeiro — porque curandeiro é o que é — marca os dias com unhas de fogo na casca: trinta dias para o meio-curado, noventa para o extra. Leva-se para casa embrulhado em papel de estraza que deixa o carro a cheirar a estábulo durante uma semana.
Festa que se herda
No domingo da Trindade, o império do Espírito Santo na Fajã do Ouvidor abre às seis da manhã. As panelas de cobre já estão no lume desde as quatro, quando as mulheres puseram o pão de milho a cozer em forno de lenha. A sopa é espessa — feijoca, inhame, folha de couve roxa cortada à tesoura. Come-se em tigela de barro rachada, sentado em bancos de madeira onde alguém já entalhou «José e Maria 1968». A procissão desce depois do almoço: o andor balança, o cornetim range, e na curva da estrada vê-se o Pico inteiro como que a ouvir.
Noite que se guarda
Quando o último ferry apita, o cais fica às escuras. A única luz vem do café «O Pescador» onde o rádio marca TSF e o dono serve aguardente de medronho em copos de vidro grosso. Lá fora, o mar bate no molhe com a regularidade de respiração. O relógio da Câmara dá as onze e um quarto — sempre adiantado — e alguém diz que amanhã há lula na costa. Prendem-se os casacos, apagam-se os cigarros na pedra. A vila fecha-se como uma concha: primeiro o ruído, depois as luzes, depois o próprio nome.