Artigo completo sobre Cabouco: vida rural a 179 metros acima do Atlântico
Freguesia de São Miguel onde 2000 habitantes mantêm tradições agrícolas e arquitetura vulcânica
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A luz da manhã entra oblíqua pelas frestas das janelas, recortando sombras nas paredes caiadas de branco. No Cabouco, a 179 metros acima do mar, o dia começa com o som distante de um motor de tractor e o canto de um galo que se engasga nos quintais. É o barulho típico de quem tem de levantar cedo para regar a couve antes do sol queimar.
São quase dois mil habitantes distribuídos por pouco mais de cinco quilómetros quadrados. Parece muito, mas é só ir ao café do Sr. Joaquim às 7h da manhã que se percebe: lá estão todos. Os 350 miúdos da escola até conseguem esconder-se, mas os 191 idosos não - sentam-se à porta como se fossem a televisão da rua.
O território do vulcão
O chão é preto como o sapato do meu avô no domingo. Os muros de pedra parecem feitos por quem tinha paciência para um puzzle de mil peças - encaixadas sem cimento, só com jeito. Entre elas, as laranjeiras que dão os Citrinos do Algarve. Dizem que é IGP, mas aqui chamam-lhe "a laranja que o pessoal de Lisboa paga balúrdios".
Nos quintais, os fumeiros ainda trabalham mais que muita gente. O cheiro a madeira de criptoméria com gordura a pingar é o perfume oficial da freguesia. Não há restaurante com estrelas - há é a D. Albertina que faz um molho de vinho de cheiro que até um vegano desconfia.
Viver entre o campo e a estrada
Estás a ver aquela sensação de "ui, já não há nada"? É mais ou menos aqui. Cabouco fica onde o GPS começa a hesitar. Não há filas para selfies, nem lojas de recordações. Há é o Sr. António que te pode dar uma laranja se lhe perguntares com jeito.
Ao final do dia, o silêncio é tão grosso que se corta com a faca do pão. O vento traz o cheiro da terra molhada misturado com laranja podre - aquele fruto que toda a gente viu cair, mas ninguém foi apanhar. É aquela altura em que o café já fechou, a televisão das janelas acende e tu pensas: "Então e agora, vou para onde?"
Não venhas cá procurar parques de diversões ou miradouros com guardanapos de papel no chão. Cabouco é aquela tia que te serve sopa e diz "comes e calas". Não promete nada - só dá o que tem. E o que tem é terra que ainda produz, gentio que se conhece todos os dias, e um silêncio que até mete medo quando os cães deixam de ladrar.