Artigo completo sobre Lagoa: Barro, Mar e Laranjais de São Miguel
Santa Cruz ergue-se onde havia uma lagoa, entre cerâmica centenária e ruínas de forte atlântico
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O cheiro a barro húmido mistura-se com o sal do mar quando se entra na Cerâmica Vieira. Há cento e sessenta e três anos que os tornos giram aqui, movidos à mão, e os fornos alimentados com lenha de figueira transformam argila local em azulejos e louças que carregam a marca da Lagoa. Nas traseiras da fábrica, o mestre oleiro pressiona o pedal com o pé descalço — gesto que Bernardino da Silva repetiu quando fundou esta casa em 1862 —, e a peça ganha forma sob os dedos manchados de barro vermelho. Lá fora, a brisa atlântica traz o eco longínquo das ondas que quebram no Porto dos Carneiros, o mesmo cais onde desembarcaram as primeiras ovelhas da ilha no século XVI.
A vila que nasceu de uma lagoa
Santa Cruz ergue-se onde existiu uma pequena lagoa costeira, berço do povoamento que viria a dar nome a todo o concelho. Elevada a vila em 1522, a Lagoa tornou-se rapidamente no principal entreposto exportador de trigo e peixe de São Miguel. No século XVIII, navios ingleses atracavam semanalmente junto ao Forte da Lagoa — hoje ruína de pedra vulcânica que resiste ao vento junto ao mar — para carregar laranjas destinadas aos mercados de Londres. A introdução dos citrinos no século XVII mudou a paisagem e a economia: onde antes se semeava cereal, plantaram-se laranjais que perfumavam os caminhos rurais. Em 2012, a vila ascendeu a cidade, mas a freguesia de Santa Cruz conserva o ritmo pausado de quem cresceu entre o mar e os pequenos cones vulcânicos do planalto interior.
A Igreja Matriz de Santa Cruz, com as suas reconstruções setecentistas e oitocentistas, domina a praça central. É aquele tipo de igreja que parece maior por dentro do que por fora — como se os padres antigos soubessem que o importante é o espaço para as procissões não se engolirem nas curvas. Mais acima, o Convento dos Franciscanos abre os braços barrocos sobre um jardim onde a talha dourada brilha à luz da tarde. O silêncio é denso, quebrado apenas pelo canto de um melro ou pelo arrastar de chinelos na calçada. Dentro do convento, a madeira range sob os passos; o ar cheira a cera de vela e a humidade antiga. Dizem que os frades escolheram bem o sítio: dá para ver o mar, mas o mar não os vê a eles.
Entre o vulcão e o oceano
A costa recorta-se em enseadas de areia vulcânica negra. A Praia da Baixa D'Areia estende os seus cem metros de areal fino — ideal para quem gosta de apanar bolhas de ar quente entre os dedos dos pés. Mas são as piscinas naturais da Caloura que roubam o espetáculo: água cristalina que mais parece garrafa de São Miguel a fingir que é o Caribe, com o bónus de não ter de pagar espreguiçadeira. Quem mergulha com máscara vê sargos e bodiões a deslizar entre as fendas da rocha, tão habituados a turistas que quase pedem para ser fotografados. No Trilho do Pisão, o miradouro a duzentos e cinquenta e quatro metros de altitude oferece uma vista varrida pelo vento sobre o porto e o Atlântico sem fim. Leve um casaco — mesmo em agosto, o vento açoriano não perdoa quem se esquece que estamos no meio do oceano.
Mais para o interior, a Reserva Florestal da Chã da Macela estende vinte e oito hectares de trilhos pedestres entre murta-dos-Açores e pastagens verdejantes. É o sítio ideal para quem quer ver perdizes-cinzentas sem ter de explicar ao miúdo porque é que o avô guarda uma na arca freezer. Os pombos-da-rocha levantam voo ao menor ruído — aliás, levantam-se sempre que ouvem turistas a discutir se aquilo é um pombo ou uma cagarra.
Sabores que chegam do mar e da terra
Na Caloura, os pescadores regressam ao amanhecer com abadejão, boca-negra e sargo. A caldeirada cozinha devagar em panelas de ferro: tomate, pimentão, coentros frescos e o aroma a mar que impregna a cozinha. Dizem que o segredo está em deixar ferver o tempo de um água-pe — ou seja, o tempo que demora um pescador a contar a mesma história pela terceira vez. As lapas grelhadas com manteiga de ervas chegam à mesa fumegantes, a casca tostada pelo lume. Cuidado com a primeira mordida — queima mais que o sol de meio-dia em agosto.
Nas traseiras das casas, as couves do sola — refogadas com chouriço caseiro — acompanham o polvo guisado em vinho de cheiro, esse néctar açoriano feito de castas americanas que resiste em pipas de castanho. É o vinho que o pessoal serve em copos de cristal quando vem gente de fora, mas que bebe em copos de água quando é só entre nós. Ao fim da tarde, as queijadas da Lagoa saem do forno: massa folhada recheada com requeijão açucarado, polvilhadas de canela. Os bolos de véspera guardam laranja cristalizada e o perfume dos citrinos locais — laranja, tangerina, lima-da-pérsia —, herança dos pomares que enriqueceram a freguesia. Compre antes das três da tarde, que depois é só rasto poeirento e algumas migalhas para contar a história.
Festas que nascem do mar
Em Junho, o Festival Lagoa Bom Porto transforma o Porto dos Carneiros. A procissão marinha honra São Pedro Gonçalves Telmo, patrono dos pescadores: barcos enfeitados deslizam sobre o mar calmo enquanto os sinos da Igreja Matriz ressoam pela encosta. É a única altura do ano em que os pescadores se lembram que têm fato limpo guardado para os dias de festa. Depois vem a prova de caldeiradas, onde cada um defende a sua receita como se a mãe dele tivesse inventado o peixe — e quem perde vai para casa a prometer que no próximo ano leva o caldeirão da avó. No Domingo de Páscoa, arde o Judas na praça e distribui-se folar caseiro, ainda quente, de mão em mão. Durante a Epifania, os cantares de Reis ecoam de porta em porta, vozes roucas que pedem licença antes de entrar. Se lhe oferecerem um copo de aguardente, aceite — é mau ago recusar música e bebida numa casa que abre a porta a estranhos.
Ao fim do dia, quando o sol rasante tinge de laranja a fachada da Cerâmica Vieira, o torno pára e o silêncio regressa. Fica o cheiro a barro seco, a lenha queimada, a mar. E o som distante de uma onda que rebenta sempre no mesmo sítio, há quinhentos anos — como se o mar também tivesse memória e preferências, e escolhesse aquele canto de pedra para contar as suas histórias à beira-mar.