Artigo completo sobre Achada: onde a ribeira desce e o verde respira
A freguesia mais pequena do Nordeste revela-se entre muros de pedra e pastagens a 283 metros
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O som chega primeiro: o murmúrio da ribeira, aquele barulho de água que se ouve antes de se ver a água. Depois o verde — não o verde de postal, mas o verde das pastagens que só se encontram a 300 metros de altitude, cortadas por muros de pedra que parecem costuras negras numa manta desfeita. O ar traz aquele cheiro característico: humidade salina misturada com terra molhada e a lenha da cryptomeria que arde devagar nos fogões de inverno.
Onde o interior encontra o mar sem praia
Achada é a freguesia mais pequena do concelho de Nordeste — 387 pessoas, segundo os últimos censos, mas parecem menos quando se atravessa a aldeia às nove da manhã num dia de semana. O nome diz tudo: é um planalto a 283 metros de altitude, a única superfície mais ou menos plana numa ilha cheia de ladeiras. A igreja de São João Baptista está ali desde o século XIX, branca contra o céu, com o adro de pedra vulcânica onde se juntam os velhos à sombra.
A paisagem não se contempla de janela: percorre-se. O trilho PR05 SMI desce por entre moinhos de água abandonados e bosques de cryptomeria, e quando finalmente emerge num miradouro, o mar aparece lá em baixo, batendo directo nas falésias. Não há praias aqui — o mar é selvagem, inutilizável — mas a dez minutos de carro há as piscinas naturais de São Pedro de Nordestinho, onde se pode entrar na água sem ser arrastado pelas correntes.
O sabor do isolamento
A cozinha de Achada é o que se arranja quando se vive a 300 metros de altitude. Sopas do Espírito Santo que engordam o corpo no inverno, caldeirada de peixe que foi pescado na costa próxima, chouriço de lingueira que arde na boca mas aquece o estômago. O bolo lêvedo do café local — se estiver aberto — é daqueles que se parte com as mãos e se come com manteiga às colheradas. Ao fim da tarde, alguém vai buscar o vinho de cheiro à garrafa esquecida no fundo do armário, e a conversa estende-se até a luz se ir embora.
Quase metade da população tem mais de 65 anos. Os jovens foram-se embora — Brasil, Estados Unidos, Canadá — e deixaram casas fechadas e jardins invadidos por ervas. Mas ainda há o Dia da Ceifa em Agosto, quando se mostra como se colhia milho antes das máquinas, e o Canto dos Reis em Janeiro, quando se percorre as ruas a cantar músicas que ninguém sabe de onde vieram.
Quando o nevoeiro desce da serra da Tronqueira, Achada desaparece. Fica apenas o som da ribeira, o sino da igreja a marcar as horas, e aquele cheiro a terra molhada que sobe dos muros — um aroma denso, mineral, que só a pedra vulcânica sabe libertar depois da chuva.