Artigo completo sobre Algarvia: vida rural a 321 metros de altitude
Freguesia de 240 habitantes no Nordeste mantém tradição agrícola entre pastagens e muros de pedra
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A estrada sobe 7 km desde a ER-1-1, entre muros de basalto empilhado em 1953 pelo programa de melhoramentos agrícolas do Ministério da Economia, até atingir os 321 m do lugar de Cimo da Rocha, onde o coreto de cimento erguido em 1979 marca o centro vazio da freguesia. São 240 pessoas distribuídas por 5,4 km² — 44 hab./km², o valor mais baixo do concelho — e ainda assim menos do que os 380 registados no recenseamento de 1991.
Geografia de isolamento
O cartão de visita é a falta de cartões. Não há café, nem bomba de gasolina, nem caixa multibanco. A mercearia da Sr.ª Arminda, na Rua da Igreja, abre “quando há pão” — três vezes por semana, encomendado de Ponta Delgada e trazido pela carrinha do Sr. Carlos que faz a volta ao concelho às quartas. As casas de basaltio escuro com portas azuis não são “tradicionais” no abstracto: são as mesmas que constam no Cadastro Predial de 1863, apenas com telhado de fibrocimento substituindo a antiga colmo. Nos quintais, as latadas de vinha ‘verdelho’ sobrevivem nos 0,8 ha que ainda estão declarados na DOP ‘Vinhos dos Açores’, criada em 2004, mas que em Algarvia já não tem um único produtor ativo desde 2018.
Ritmos geracionais
Censo 2021: 23 residentes com menos de 15 anos, 48 com mais de 65. O autocarro escolar da empresa A. França & Filhos parte às 7h05 com sete alunos — três para a EB1/JI do Nordeste, quatro para a Escola Secundária de Povoação — e regressa às 17h45. A única atividade coletiva regular é o grupo de cantares ao desafio que ensaia na sala da Junta às sextas, herdado do extinto Clube de Campo “Os Lavradores”, fundado em 1968 e encerrado em 2009 por falta de sócios.
Território de pedra e água
Algarvia integra a Área de Paisagem Protegida da Zona Central e o Geopark Açores desde 2013. Não há caldeiras, mas há a Lagoa do Caldeirão, pequena lagoa temporária formada sobre lavas de 1630 (erupção do Pico do Fogo), hoje classificada como habitat prioritário 3110. A ribeira principal, a Ribeira do Pelames, nasce a 580 m no Pico da Vara e desce 5,2 km até ao mar, alimentando três moinhos de água ainda em pé — o do Meio, o do Fundo e o do Povoado — todos datados de 1837 nos livros de registo da Junta. Quando o vento roda para NE, traz o cheiro a enxofre da fumarola da Caldeira Velha, a 8 km em linha recta, mas que aqui se sente como um alerta de que a ilha ainda respira.
Ao cair da tarde, acende-se primeiro a luz da casa do Sr. Jaime, antigo regedor civil (1974-1994), depois a da família Bettencourt, que mantém as 18 vacas leiteiras que fornecem o leite diário para a LactAçores. O resto é silêncio, pontuado pelo relógio de parede da Igreja de Nossa Senhora da Saúde, construída em 1876, que marca as horas com um tinido que se ouve em toda a freguesia — porque não há outro som que o sobreponha.