Artigo completo sobre Lomba da Fazenda: onde a névoa desenha a paisagem
Freguesia açoriana de altitude com 749 habitantes, entre pastagens inclinadas e geologia vulcânica
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A névoa desce pela encosta e envolve os telhados como quem pega num cachecol molhado e o atira para cima das casas. O verde das pastagens desfoca-se, quase como se alguém tivesse desapertado os óculos, e o mugido que soa lá em baixo não é posta de teatro — é mesmo a Marta, a vizinha de cima, a chamar a vaca que se escapou outra vez.
Lomba da Fazenda é isto: quinze quilómetros quadrados de subidas que fazem respirar fundo, muros de pedra que parecem feitos por quem bebia aguardente de vez em quando, e 749 pessoas que ainda se cumprimentam pelo nome da mãe. Dizem que temos 50 almas por km², mas na estrada parecem ainda menos — o que é óptimo quando se quer fugir ao primo de Ponta Delgada que insiste em fazer "uns biscates no fim-de-semana".
A pedra que sobrou do fogo
Já reparou que o chão é preto e pontiagudo? É basalto, sobra de quando a ilha decidiu aparecer. A UNESCO gosta disto, nós habituámo-nos. O nevoeiro não é ambiente de novela: é o vizinho que entra sem bater e fica até encontrar saída. Leve casaco. Ou melhor: leve dois. E não confie no GPS — aquele troço ali em frente ao cemitério já engoliu três turistas e um carteiro.
O que se faz aqui (além de respirar ar puro)
Vacas, claro. Há mais vacas que gente, e elas têm prioridade na estrada — é regra não escrita, mas multa caríssima se a atropelar. O leite vai todo para a fábrica da vila, o queijo depois aparece nas lojas a cinco euros a fatia e nós compramos o nosso ao Zé do Celeiro, que troca por garrafas de vinho caseiro. Turismo de massas?Zero. Tem um café, o da Adelaide, abre quando ela se levanta e fecha quando a novela começa. Peça o café com leite quente, não discuta — é assim ou vai à próxima vila, que fica a 20 minutos de curva.
Como chegar e porquê
Vem-se de carro ou não se vem. A estrada é estreita como a conversa do tio Manuel: dá para si e para metade do que vem no sentido contrário. Se encontrar trator, dê ré até à rotunda seguinte — é treino de vida. Quando chegar, estacione onde não atrapalhe ninguém (isto é importante: todos sabem quem é o dono do carro estranho). Depois, ande. Suba. Perda-se. A única coisa que o vai morder é o vento; o resto são hortênsias e cães de Garrano que ladram de longe.
Dica de amigo: leve uma garrafa vazia. A fonte do Pico tem água melhor que a das Amoreiras e ninguém lhe vai cobrar nada. Se encontrar o Sr. Armindo com o chapéu de palha, diga que veio por minha indicação — ele vai-lhe mostrar onde cresce o funcho do bom e ainda conta como se fazia vinha antes da doença. Não lhe ofereça dinheiro. Aceita um maço de tabaco ou uma gorjeta para o neto, nada mais.
Ao fim do dia, quando o sol se pôr lá em cima parecer fogo-de-artifício invertido, sente-se na mureta da capela. Acenda um cigarro (ou finja) e fique em silêncio. Vai ouvir a ilha a ranger, vacas a voltar, portas a bater. É isto. Não há espetáculo, há respiração. Se isso lhe chega, volte. Se não chegar, a próxima rotunda leva-o à praia — lá há Wi-Fi e gelado, mas não diga que eu mandei.