Artigo completo sobre Salga: Vida Rural a 410 Metros na Montanha Açoriana
Freguesia do Nordeste mantém equilíbrio demográfico raro entre agricultura de altitude e isolamento
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A estrada sobe em ziguezagues, tão apertados que os carros estrangeiros param antes das curvas para deixar passar o camião do leite. Atrás dos muros de pedra preta, os pastos estão pontiagudos de tamanho — cada bocado de terra foi conquistado à urze com enxada e paciência de santo. Aos 410 metros, Salga não está suspensa: está agarrada ao cume como quem se agarra ao balcão para ver a procissão lá em baixo. O mar espreita por entre os criptomérios, mas cheira-se antes de se ver — esse cheiro de maresia que sobe em dias de vento de leste e que se mistura com o fumo das lareiras.
Cá em cima, o tempo não se pergunta: sente-se na pele. A bruma desce sem avisar, empurrando o frio pelas gola da camisa, e quando sobe deixa os pastos cintilando como se fossem de veludo. São 484 almas, mas na prática são menos — os 78 jovens só cá estão nos fins-de-semana e férias, quando as mães lavam a roupa dos filhos em sacos de plástico e ainda conseguem encher a arca do frigorífico com sopa de couve e molho de tomate caseiro.
Onde a terra não perdoa
Não há lugar plano em Salga. Até o campinho de futebol é em declive — os miúdos da terra aprendem a chutar contra a gravidade e a marcar golos de baliza a baliza com um toque de genialidade. As vacas pastam em patamares que parecem escadaria de gigante, e quando chove a água corre pelos caminhos de calhau como se fosse descer a tobogã. Os turistas que aqui chegam são os que se perderam a caminho da Lagoa do Fogo ou os alemães de botas que leem mapas em papel. Param o carro, tiram uma foto às vacas Maronesas com o mar ao fundo, e descem abanando a cabeça — "Schön, aber steil".
Nas manhãs de inverno, os homens descem aos baldios cortar acácia para a lareira. A lenha é tão negra como a pedra dos muros, e quando arde crepita como se estivesse viva. Nas cozinhas antigas, o fumeiro ainda está por cima da lareira — as linguiças curam lentamente, ao ritmo dos dias que não têm pressa. Em Janeiro, quando o tempo fecha, o cheiro a fumo e a gordura derretida entranha-se na roupa que se estende nos estendais de madeira, e é esse cheiro que os filhos reconhecem quando voltam à terra.
Vinho que vem de baixo
As vinhas estão escondidas nos soutos — pequenos terrenos que os avós limparam à mão entre os tojos. As videiras crescem agachadas, protegidas por muretes que não dão para o mar mas guardam o calor do sol da tarde. O vinho que se faz aqui não tem nome de supermercado: é tinto forte, que arde na garganta e deixa a boca a saber a pedra e a fogo. Bebe-se em copos pequenos, à mesa de madeira onde ainda se come sopa de inhame com ovo escalfado, e guarda-se engarrafado em garrafões de plástico que os filhos levam para Lisboa "para não esquecer o gosto".
Ao entardecer, quando o sol se põe atrás do Pico da Vara, a luz fica dourada como mel de urze. É nessa hora que as sombras dos criptomérios se alongam pelos pastos e as vacas se movem lentamente para o estábulo, campainhas a tilintar como música de sino distante. O vento das alturas começa a soprar — primeiro leve, depois com força — e leva consigo o cheiro do mar, o balir das ovelhas e a promessa de noite fria. As janelas das casas fecham-se com estalo, e dentro ouve-se apenas o ranger da madeira e o som abafado da televisão da sala onde o pai adormeceu no sofá, com a boca entreaberta e os pés descalços sobre o tapete de crochet que a avã fez há trenta anos.