Artigo completo sobre Santana: Freguesia de Altitude Entre Brumas e Basalto
Conheça Santana, freguesia do Nordeste em São Miguel, onde a altitude, o gado leiteiro e a geologia vulcânica definem uma paisagem de encosta atlântica.
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A estrada estreita serpenteia entre muros de pedra basáltica onde o musgo cresce em camadas grossas. Santana fica ali, suspensa a trezentos e quinze metros de altitude, onde o verde das pastagens se funde com o azul do Atlântico que se adivinha ao longe. O ar é denso de humidade, carregado pelo cheiro a terra molhada e sal marinho que o vento transporta desde a costa norte de São Miguel. Trezentas e oitenta pessoas habitam estes seis quilómetros quadrados de encosta, onde cada pedaço de terra cultivável conta a história de gerações que aprenderam a trabalhar a inclinação.
Terra de altitude e bruma
A freguesia estende-se por terreno acidentado, dividida entre pastagens para gado leiteiro e pequenas parcelas agrícolas protegidas por sebes de hortênsias que delimitam propriedades e quebram o vento. A altitude traz nevoeiros densos que sobem do vale, envolvendo tudo numa suspensão cinzenta durante as manhãs de inverno. Quando o sol rompe, a luz desenha sombras compridas nos campos e faz brilhar as gotas de orvalho presas nas teias de aranha que se estendem entre os muros.
O povoamento é disperso. As casas de arquitectura tradicional açoriana — fachadas caiadas, cantarias de basalto, telhados de quatro águas — aparecem isoladas ou em pequenos núcleos ao longo dos caminhos rurais. Cinquenta e seis crianças crescem aqui, número que contrasta com os setenta e três idosos, desenho demográfico comum às freguesias do interior da ilha. A densidade populacional, pouco acima dos sessenta habitantes por quilómetro quadrado, permite que o silêncio seja presença constante, interrompido apenas pelo mugido distante do gado ou pelo ladrar de um cão de guarda.
Dentro do Geoparque
Santana integra o território do Geoparque Açores, classificado pela UNESCO em 2013. A geologia é omnipresente: os cones vulcânicos que pontuam a paisagem, as nascentes de água férrica que emergem entre fendas rochosas, os afloramentos de traquito e basalto que afloram nos taludes dos caminhos. O trilho da Ribeira do Guilherme, com 2,8 km, atravessa lava-pomes de 2300 anos e termina nas cascatas de água ferruginosa onde os habitantes recolhem água para tratamentos de anemia.
A região vinícola dos Açores, embora com expressão modesta em Santana, deixa marcas na paisagem através de pequenas vinhas familiares protegidas por currais de pedra. A vinha rasteira, cultivada em socalcos minúsculos, resiste ao vento e à humidade constante, produzindo cachos pequenos e concentrados que alguns agricultores ainda transformam em vinho de cheiro para consumo próprio.
Quotidiano entre o verde e o azul
O ritmo de vida segue os ciclos agrícolas e pastoris. As manhãs começam cedo com a ordenha, o transporte do leite para a Cooperativa dos Lacticínios do Nordeste em Povoação, a manutenção das pastagens. Os mais velhos ainda trabalham as hortas onde crescem inhames, couves, milho para as galinhas. A logística não é simples: a distância aos centros urbanos, as estradas sinuosas, a dependência do automóvel para qualquer deslocação moldam o quotidiano de quem aqui permanece.
Quando a tarde desce e a luz dourada do poente ilumina os campos, o verde intenso das pastagens adquire tons quentes de âmbar. O cheiro a estrume fresco mistura-se com o aroma das flores de pitósporo que crescem selvagens nos taludes. É nesse momento que a altitude faz sentido: o olhar alcança quilómetros de costa recortada, o oceano que muda de cor com a passagem das nuvens, e a consciência física de estar suspenso entre a terra e o céu.