Artigo completo sobre Santo António de Nordestinho: pão de milho e priolo
Santo António de Nordestinho, no Nordeste de São Miguel, mantém tradições do pão de milho, trilhos para observação do priolo e festas que celebram o trabal
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O fumo sobe direito da chaminé do forno comunitário, carregando o cheiro a pão de milho e lenha de criptoméria. É quinta-feira de manhã em Santo António de Nordestinho, e meia dúzia de mãos amassa a farinha amarela sobre tábuas de madeira gretada pelo tempo. Lá fora, a neblina dissolve-se devagar nas encostas que sobem até ao Pico da Vara, revelando socalcos estreitos onde cresce a batata-doce entre muros de basalto escuro. Aqui, a 271 metros de altitude, a freguesia mais pequena do Nordeste — 260 habitantes dispersos por 937 hectares — mantém rituais que noutros pontos da ilha já só existem na memória.
Quando o trabalho era festa
A "Festa do Trabalho e do Pão", celebrada em anos alternados, recupera gestos que o corpo ainda reconhece: a ceifa manual do milho, o trilho dos caules secos na eira, a massa que descansa coberta com panos de linho antes de entrar no forno. As crianças da Escola do 1.º Ciclo juntam-se aos agricultores locais, e durante uma manhã inteira a freguesia cheira a terra revirada e a massa a crescer. No dia 13 de junho, quando se celebra Santo António, as ruas enchem-se de ramos de flor-de-santos — a hortênsia açoriana de pétalas azuis e cor-de-rosa — e a procissão percorre o adro da Igreja Paroquial setecentista, onde a talha dourada brilha à luz das velas.
A montanha que guarda uma ave
O trilho PR 02 SMI começa na Casa do Guarda da Atalhada, pequena ermida rural de paredes caiadas que marca o início da subida ao ponto mais alto de São Miguel. O caminho atravessa pastagens onde o gado pasta entre manchas de urze roxa e azevinho, e à medida que se sobe, a criptoméria dá lugar ao cedro-do-mato e à floresta nativa. É aqui, nesta encosta virada a nordeste, que vive o priolo — Pyrrhula murina —, ave que só existe nesta parte da ilha. O viveiro comunitário gerido pelo Centro Ambiental do Priolo produz milhares de plantas endémicas por ano: urze, azevinho, cedro. Quem participa numa ação de voluntariado de plantio regressa com terra sob as unhas e a certeza de ter deixado algo vivo na montanha.
À mesa da encosta
O caldo de nabos com linguiça de sangue ferve devagar no fogão a lenha, espesso e escuro, servido em tigelas de barro com fatias grossas de pão caseiro. No inverno, a matança do porco ainda reúne vizinhos: o toucinho fica pendurado no fumeiro, o chouriço de carne cura ao ar frio da serra, e o torresmo de orelha — crocante, salgado — desaparece em minutos. A doçaria concentra-se no pão de ló de Santo António, fofo e perfumado com raspas de lima-da-terra, e nas bolachas de canela que acompanham o vinho de cheiro produzido nas pequenas vinhas dos socalcos.
Sob o céu mais escuro
Ao final do dia, o Miradouro da Atalhada oferece a vista completa sobre a freguesia: as casas de pedra basáltica com platibandas de madeira, os campos recortados pelos muros, o mar ao longe. Em noites sem lua, longe de qualquer poluição luminosa, a Via Láctea desenha-se inteira sobre a serra. O silêncio é denso, apenas cortado pelo vento nos vales profundos da Ribeira do Guilherme e pelo eco distante de um sino. Fica-se ali, de pé sobre a pedra fria, a contar estrelas até perder a conta.