Artigo completo sobre Fenais da Luz: campos de inhame e sino ao meio-dia
Freguesia agrícola a 15 minutos de Ponta Delgada, onde a terra vulcânica alimenta tradições
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O sino da Igreja de Nossa Senhora da Luz — a mesma que ouço da janela quando visito os meus tios na Rua da Igreja — marca o meio-dia. O som percorre os campos de inhame como quem vai à padaria da Dona Lurdes, desliza pelos muretes de basalto que separam a horta do quintal do Sr. Agostinho, e vai morrer lá em cima, na Canada do Pico. A quinze minutinhos de carro do centro de Ponta Delgada (conta-se a chegada à rotunda da Relva, depois é direita na estrada regional), o tempo aqui anda ao ritmo da enxada: se o vizinho está a "fazer a sementeira", logo se sabe que é altura de pôr o inhame na terra.
Terras regadas, luz antiga
Fenais da Luz — 2 227 almas, 7,7 km², densidade de 289 hab/km² — foi paróquia atrasada. Enquanto em São Roque já se construía a Igreja do Colégio, aqui só se falava de "fenais", terras férteis que os luzenses de Santa Clara vinham lavrar. A capela existia desde 1771, mas só em 26 de Agosto de 1832, portaria provincial n.º 383, a freguesia ganhou carta. A actual matriz, mandada erguer pelo vigário Jerónimo Cândido de Bettencourt entre 1855 e 1866, é traço por traço a casa da avó: paredes caiadas a cal, basalto nos cunhais, porta de madeira que range sempre no mesmo lugar. No dia 8 de Dezembro, missa das nove, procissão até à Canada do Mato, feijoada com inhame no Centro Paroquial e muita bica na pastelaria O Amorim, aberta pelo António desde 1983.
O sabor da terra vulcânica
Entre na Tasquinha do Félix (fica à esquerda da Igreja, ao lado da bomba da BP) e peça sopa de inhame — não tem carta, a D. Rosa decide ao eito. Leva couve da horta, chouriço do Matias e o tal inhame que ela descasca com a faca de cabo azul. Para acompanhar, bolo lêvedo direto do forno, ainda quente a derreter a manteiga da Quinta dos Açores. No Inverno aparece o caldo de nabos — "é o que há, meu senhor" — e, se for sexta, broa de mel do forno da Canada da Lapa: 3 € a unidade, embrulha-se em papel de estraza. Nada de fusão, nada de foam: só o que a terra dá, temperado com pimenta-da-terra como fazia a avó do Félix.
Entre o verde e o azul
Quem sai da estrada regional pela Canada do Rolo, sobe a pé três minutos e chega ao patamar onde o mar aparece — uma linha de feltro azul-escuro a 5 km, a mesma vista que o meu tio mostra aos netos. Ali, 56 m de altitude, o campo partide-se em losangos: o parel da Dona Emília, o ananás do Sr. Domingos, a pastagem das vacores da cooperativa Capelinhos. Segue-se o trilho municipal PR14SMI: 4,2 km, marcação amarela, dura uma hora e meia se parar a catar a tangerina que caiu para o lado do muro. No km 2, miradouro improvisado: rocha-pomes preta, placas explicativas desaparecidas, mas a vista compensa — Feteiras ao fundo, o Pico do Carvão a direita e, em dia claro, a casa de Vila Franca do Campo no horizonte.
Viver perto, viver devagar
São 2 227 habitantes, recenseamento 2021, mas na prática são menos: muitos estão registados e vivem em Ponta Delgada, regressam só ao fim-de-semana. Ainda assim, encontram-se sempre os mesns rostos na papelaria O Pensamento, no café Central (aberto às seis, fechado às dezenove, domingo descansa) ou no mercadinho mensal que a Câmara monta na segunda sexta, em frente ao Centro de Saúde. Quer areal? dez minutos até às pedras de Santo António, água cristalina mas cuidado com o fundo escorregadio. Quer piscina? segue pela estrada de ligação até às Poças de São Vicente em Rabo de Peixe, onde o Atlântico entra manso entre rochas nevadas de míica. Volte antes das seis: depois disso, a estrada fica preta de quem regressa da cidade e o semáforo da Grotinha não perdoa.
Quando o sol se põe atrás do Pico da Cruz — hoje às 20h37, segundo o meu relógio — a luz doura os muros de xisto da Rua Dr. Augusto César de Bettencourt e o mato do morgado parece empanado de mel. O cheiro é sempre o mesmo: terra solta, fumo de urze da chaminé do Sr. Agostinho e, lá de cima, o perfume azedo das hortênsias que a D. Lurdes ainda não podou. Não há esplanada, não há música alta; há apenas o ronco do trator do André que regressa da horta e o cão do vizinho a ladrar ao poste porque já conhece a todos, mas ladra na mesma. E é assim que se percebe Fenais da Luz: um sítio que cabe num olhar, mas onde cada gesto — semear, regar, amassar — leva o tempo que tem de levar.