Artigo completo sobre Ginetes: Nevoeiro e Vinhas na Costa Oeste de São Miguel
Ginetes, em Ponta Delgada, é uma freguesia de São Miguel com menos de 1200 habitantes, vinhas protegidas por muros de basalto e paisagem integrada no Geopa
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O nevoeiro acumula-se nas encostas e desce pela Rua Direita até às primeiras casas, amortecendo os contornos das paredes caiadas. Nas manhãs de Ginetes, o som mais frequente é o do vento atlântico que varre a costa entre a Ponta da Ferraria e o Pico das Camarinhas, trazendo consigo o cheiro a salitre e a humidade densa que impregna a roupa estendida. A freguesia repousa a uma altitude média de cento e setenta metros, suspensa entre o mar invisível e as pastagens verdejantes que cobrem os 1213 hectares do território. Aqui, a luz muda depressa — uma réstia de sol atravessa a névoa e, minutos depois, a chuva fina volta a borrifar as ruas de chão de pedra que ligam Ginetes às Moitas.
Ginetes é uma das povoações menos densas da costa oeste da ilha, com 1184 habitantes distribuídos por uma geografia acidentada. A densidade demográfica — cerca de noventa e sete pessoas por quilómetro quadrado — reflecte-se no silêncio dos caminhos rurais e na distância entre as casas. Cento e cinquenta crianças correm pelo recreio da EB1/JI de Ginetes; duzentos e doze idosos conhecem de cor cada curva da ER3-2A, cada pedra solta no muro de basalto que delimita as propriedades onde pastam as vacas da Cooperativa Agrícola dos Lactícinios do Picodo. O equilíbrio entre gerações é frágil, como em tantas freguesias atlânticas, mas ainda resiste.
Entre a terra e o oceano
A geografia de Ginetes explica muito do seu carácter. Situada na vertente virada ao oceano, a freguesia integra a Região Vinícola dos Açores — uma classificação que, aqui, significa sobretudo pequenas vinhas familiares protegidas do vento por muros de pedra vulcânica. As videiras crescem baixas, agarradas ao solo escuro, produzindo uvas de acidez pronunciada que fermentam em adegas improvisadas. O vinho não é uma indústria, mas um hábito doméstico, uma herança transmitida de pai para filho sem rótulos nem denominações — como o vinho de cheiro que o Sr. Agostinho, na Rua da Igreja, faz desde 1973.
A paisagem integra o Geoparque Açores, reconhecido pela UNESCO, e os trilhos que atravessam a freguesia mostram a geologia violenta que moldou a ilha: basalto negro, escória porosa, fetos arbóreos que crescem nas fendas húmidas. Caminhar aqui exige alguma preparação — o Trilho da Salga, que liga Ginetes às Mosteiros, tem 8,5 quilómetros e um desnível de 400 metros, os trilhos nem sempre estão sinalizados, e o tempo muda sem aviso. Mas é precisamente essa rudeza que mantém Ginetes afastada das multidões. Aqui, não há autocarros de turistas a descarregar na Ermida de Nossa Senhora da Boa Morte — quem visita a freguesia fá-lo por escolha deliberada, não por acaso.
O quotidiano sem artifício
Não há monumentos imponentes nem praças reconstruídas para cartões-postais. O património de Ginetes é discreto: a Igreja Paroquial de São Sebastião, construída em 1845, as capelas de Santo António e de São José, os fontanários de pedra onde ainda se enche a bilha nos dias de corte de água. A gastronomia é modesta, reflectindo a economia agro-pastoril da região — cozidos feitos nas panelas de barro da Olga, queijo fresco de vacas criadas nas pastagens de altitude, o pão do Horácio que esfria sobre a mesa de madeira. Nos dias de festa, há música de viola da terra com o Chico Andrade e o cheiro a morcela e chouriço assados mistura-se com o fumo das fogueiras na Feira do Trigo.
As lojas são poucas. O comércio local resume-se à mercearia da Laura, o Café Central onde o Sr. Zé Mário e o Sr. António jogam sueca ao fim da tarde, a padaria da D. Rosa que abre às 5h30 para os padeiros logo prepararem os folares. A logística do dia-a-dia obriga a deslocações frequentes a Ponta Delgada, a cerca de quinze quilómetros de distância — uma viagem que, com trânsito na Variante e curvas na Covadinha, pode demorar meia hora. Mas há quem prefira a inconveniência à pressa urbana.
Permanência
Ao fim do dia, quando o sol finalmente se despede por detrás das nuvens baixas, as luzes das casas acendem-se uma a uma. O vento não abranda — continua a assobiar nas fendas das janelas, a agitar os ramos das criptomerias que delimitam os caminhos. Em Ginetes, ninguém espera que o visitante se impressione facilmente. A beleza está na aspereza, no esforço necessário para habitar um lugar onde o Atlântico nunca deixa de lembrar a sua presença.