Artigo completo sobre Pilar da Bretanha: vida a 229 metros do Atlântico
Freguesia de altitude em São Miguel onde o nevoeiro matinal encontra pastagens e pedra vulcânica
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A estrada sobe, faz duas curvas em S e, de repente, aterra deixou de cheirar a gasolina e passou a cheirar a vaca e a terra molhada. Pilar da Bretanha não é um miradouro com estacionamento: é aquela aldeia onde o café do Sr. Toninho abre às sete porque as vacas não esperam. São 576 pessoas, mas na prática são 300 que se conhecem todas — e as outras 276 são parentes que estão “fora a estudar” ou “no Canadá”.
Geografia de altitude
Estamos a 229 m, o suficiente para o nevoeiro barrar a estrada umas quantas manhãs por mês. Quando isso acontece, a malta não diz “está nebuloso”; diz “hoje a ilha está de molho”. Aqui não há lagoas de cartão-postal; há é pedra solta que serve de muro, de banco e, por vezes, de berlinde quando os miúdos se entretêm. O Geopark até nos mete no mapa, mas o vulcão que interessa é o que aquece a água do cozido — se a terra treme, ninguém sente: está-se a ver se a vaca pariu.
Quotidiano de terra interior
A escola tem duas salas por ano e mesmo assim o recreio soa a festa. Dezasseis miúdos na turma do 4.º ano parecem sessenta quando lhes damos uma bola. Os que se vão embora voltam no Verão com sotaque de Boston e fotos de neve; os que ficam sabem o nome de cada vaca e ainda usam o relógio do pai para não chegar tarde à ordenha. Domingo é dia de igreja, sim, mas é também dia de ver se o Gualter já vendeu o terreno ao lado — preço pedido: “o que derem, mas não pode ser para estrangeiros construir casa de férias rosa”.
Vinho e terra vulcânica
Não vá o leitor imaginar vinhas em muro de pedra como no Pico. Aqui a videira sobe ao lado do choupo, dá umas uvas que parecem bagas e o vinho sai tão forte que o padre agradece quando sobra para a missa. Bebe-se em copo de misto, ao pequeno-almoço do baptizado, e nenhum engarrafamento vai para fora da ilha — até porque garrafa é precisa para o licor da tia Albertina. O queijo é de São Jorge, é verdade, mas o pão é da Clarinha que ainda vai ao forno do lugar; come-se com manteiga salgada e ficamos felizes como se o mundo acabasse ali.
Silêncio habitado
O que fica depois da visita não é selfie. É o rádio do tractor a perder-se na encosta às seis da manhã, o cheiro a silagem que se agarra às meias, o cão que vem atrás da gente até à esquina e depois volta para trás — já sabe que não vamos ficar. Fica a certeza de que há sítios onde o tempo não passou a correr: simplesmente sentou-se no muro, acendeu um cigarro e decidiu esperar por nós.