Artigo completo sobre São Sebastião: O Coração Histórico de Ponta Delgada
Portas da Cidade, mercado centenário e igrejas barrocas no centro histórico de São Miguel
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O sino da Torre Sineira marca as nove da manhã e o som espalha-se como quem atira uma pedra ao Lagoa do Fogo — em círculos, até bater nas janelas das casas de portas pintadas de verde e vermelho. O ruído desce a Rua dos Mercados, entra no Mercado da Graça como quem entra num café sem bater, e mistura-se com o cheiro do chá que a dona Alice serve no balcão da tasca desde 1983. Lá dentro, os ananases estão empilhados como se fossem bolas de snooker, mas são mais caros — e vale a pena, porque são os únicos que sabem a ananás. A queijada da Vila é aquela que a mulher do balcão corta ao meio sem olhar, enquanto pergunta ao alemão se quer levar duas ou três. "Leve três", diz ela, "que uma nunca chega para perceber o que é bom".
Onde o mar acabou e a cidade começou
A Igreja Matriz foi feita como as casas dos Açorianos: aos bocadinhos. Começou pequena, foi crescendo com as colheitas boas e com as colheitas más — cada século deixou a sua janela, o seu altar, o seu pormenor. A Torre Sineira é o que resta do que devia ser um sino para avisar os barcos, mas hoje avisa é os atrasados para a missa das dez. São 102 degraus, contei-os uma vez com o meu filho, que parou aos 47 para dizer que tinha fome. Em cima, o São Miguel de pedra tem o dedo do pé liso de tanta gente que toca nele "para ter de voltar". Funciona. Voltei três vezes, e não foi por escolha.
As Portas da Cidade são como aquela mesa de café que a mãe guarda na garagem — desmontaram-nas para fazer a avenida, depois voltaram a montar, mas ninguém percebeu bem porquê. Hoje servem para os turistas tirarem fotos e para os pombos fazerem o que pombos fazem. A Fortaleza de São Brás é o que resta de quando os piratas eram problema real, não só no cinema. Agora tem canhões que não disparam há 200 anos e um museu onde o guarda explica a mesma guerra a cada grupo que entra, como se fosse a primeira vez.
Quando a cidade pára
Em Janeiro, São Sebastião é uma festa de aldeia dentro da cidade. Levam o pão para a bênção, guardam-no no armário até ao verão, e ninguém sabe bem porquê — mas fazem todos. Em Maio, é o Senhor Santo Cristo que manda. A semana começa às cinco da manhã com os bombos a bater como se o mundo fosse acabar, e acaba por acabar mesmo — o trânsito, as conversas, o tempo. A procissão é a única vez do ano em que os Ponta-delgadenses andam devagar sem ser porque estão de férias. As flores no chão duram o tempo de um Instagram, depois vão para o lixo orgânico. É assim.
O que se come quando se é daqui
O peixe é do dia, ou é dito que é. A caldeirada é como a sopa da avó — cada um tem a sua, e todas são "as verdadeiras". As lapas são um risco: ou gostas, ou não entendes porquê alguém as come. O polvo é de São Roque, o vinho é do próprio quintal, e a banana-da-terra com espada é uma invenção de quem tinha fruta a mais e ideias poucas. A queijada da Vila é como o bacalhau com natas: há quem diga que sabe melhor na casa da tia, mas ninguém diz qual é a tia. O doce de ananás é enganador — parece doce de abóbora, mas não é. Experimenta.
O sítio onde se vai quando se quer estar sozinho, mas na cidade
O Jardim António Borges é o quintal de quem não tem quintal. Tem árvores que foram plantadas por quem já morreu, lagos onde as crianças atiram pedras e os pais fingem que não veem. A gruta do amor é um sítio para beijar e para prometer, mas quem promete lá acaba sempre por se separar — dizem. O mirante da Mãe de Deus é onde se vai quando se quer ver o mar sem molhar os pés. Dá para ver São Roque, dá para ver as Sete Cidades, e dá para perceber que Ponta Delgada é mais pequena do que parece.
O relógio da Câmara bate as seis e é como o sino da escola — avisa que o dia acabou, mesmo que ainda haja luz. Na Avenida, os corredores correm porque é isso que fazem, os pescadores guardam as canas porque os peixes também têm jantar, e o ferry faz o barulho de quem vai mas volta amanhã. Fica o cheiro a maresia, que é como ficar com o sabor da noite na boca — não se tira com água, tira-se com outro dia.